O
PODER DA (IN) DIFERENÇA
Autoria de Fábio L. Violin
“Quem não vive o espírito de
seu tempo, vive suas mazelas”.
O poeta diz que o contrário do amor não
é o ódio e sim a indiferença.
Quantas vezes já fomos vítimas de pessoas
mal humoradas, rancorosas e sem a menor pretensão de ajudar ou
aceitar ajuda?
Quem não conhece aquele sujeito que sabe tudo,
que para ele nada presta, ninguém serve, nada dá certo,
e que sempre diz “eu não avisei?”.
Quantas vezes já fomos vítimas do(a) atendente
de telemarketing da grande empresa, que se apresenta como anjo de candura
para nos oferecer algo, mas que no momento de solucionar um problema tudo
fica tão difícil, complicado e estressante?
Quem nunca se irritou com o garçom que demora
em atender ou ignora nosso chamado como se não tivesse visto; com
a recepcionista que “compreende nosso problema” mas diz que
regras são regras; com o gerente que se faz de ocupado e nos deixa
aguardando infindáveis minutos ao telefone ou em pé na frente
de sua mesa; com a telefonista que nos deixa na espera ao som torturante
daquele musica irritante? Isso para citar apenas alguns exemplos do praticamente
infindável poder da indiferença.
Constantemente ouço empresários e dirigentes
reclamando dos seus funcionários, alegam que não se encontra
mais “gente de qualidade”, dizem serem vítimas de pessoas
que tem vícios de trabalho, fazem “corpo mole”, e principalmente
não se envolvem com nada.
Nada é suficiente para elas (as pessoas indiferentes),
nada as contenta, nada faz com que se movam de forma genuína. Em
muitas situações o que se vê são pessoas que
passam oito, nove, dez, doze horas trabalhando, porém loucas para
não precisarem mais colocar seus pés naquele local.
Essas pessoas são aquelas que vivem reclamando,
achando tudo difícil, colocando defeito em tudo e todos a sua volta,
e o pior, contagiam com desânimo aqueles que chegam com todo o “gás”
para produzirem algo.
Um senhor se aposentou, quase 63 anos de idade, 32 deles
dedicados a uma única instituição bancária.
Passou mais da metade de sua vida lá, e pouco antes de se aposentar
revelou a alguns colegas que “agora sim, iria se dedicar a algo
que realmente gostava”. Passou mais da metade de sua
vida fazendo algo que não gostava, por puro comodismo, falta de
diferenciação ou sabe-se lá qual motivo. Mas
o fato é que desperdiçou mais de 11.680 dias de sua vida.
E a pergunta que não quer calar: para que?
Imagine esse senhor levantando todos os dias, semana
após semana, mês após mês, ano após ano
e se dirigindo ao mesmo local, para fazer as mesmas coisas que odiava,
convivendo com pessoas que possivelmente não gostava, aturando
e sendo aturado todos os dias de sua vida para no final dizer que odiava
o que fazia.
É inconcebível que um ser humano dedique
sua vida a algo que odeia fazer. A quantidade de pessoas que estão
no lugar errado nos faz entender a indiferença da qual somos vítimas
constantemente quando precisamos nos relacionar com alguém em uma
empresa.
A apatia e o desinteresse são tamanhos, e atinge
a tantos que nem o melhor profissional de motivação ou o
melhor dos programas de melhoria pessoal conseguiria manter uma criatura
dessas “ligada” por mais que vinte dias.
Tenho uma séria restrição às
pessoas que se dizem desmotivadas, que querem que alguém massageie
seu ego ou diga o quanto elas são queridinhas com palavras de incentivo.
Posso estar sendo um tanto o quanto radical, mas creio
que cabe a cada um de nós buscar seu espaço, cabe a cada
um decidir como será o seu dia, sua semana, seu mês sua vida.
Cabe a cada um definir como quer passar os próximos dez anos, e
ninguém pode fazer isso pelo outro.
Argumentos como “não é fácil”,
“já estou velho demais para isso”, “tenho muito
a perder” são as “muletas” mais comuns. Porém,
aquele que por indiferença e desrespeito à sua vida e carreira
se deixam levar pelo comodismo, apatia e indiferença frente aos
desafios não pode se queixar, afinal foi ele quem decidiu estar
nessa situação. Exatamente, decidiu sim. Isso porque as
chances existem para todos, as possibilidades estão em toda parte,
aproveita quem quer e fundamentalmente quem as enxerga ou deseja enxergá-las.
E quando não se tem uma oportunidade, se cria.
E se isso fosse tão difícil não
teríamos as grandes evoluções, inventos, mudanças
de rumo na vida pessoal e profissional que sempre lemos nas revistas,
jornais, telejornais e na própria Internet.
O problema é que você e eu podemos encontrar
um desses sujeitos como colega de trabalho, parceiro comercial ou qualquer
outra situação que nos prenda a ele. E o pior, parece que
existe uma espécie de vírus que contagia aqueles que estão
à volta de um sujeito indiferente.
Milhares de pessoas compareceram ou viram pela televisão
o enterro do grande piloto Ayrton Senna, lembra dele? Quem não
se lembra. Duas pessoas compareceram ao enterro do bandido da luz vermelha.
Mas qual o motivo de tal comparação? Simples: cada um herda
exatamente aquilo que propagou ou proporcionou aos que estavam a sua volta.
Vivemos do passado, usufruímos hoje daquilo que
construímos, pregamos e fizemos antes. E a jornada continua, pois
vamos colher para a próxima semana, ano ou década em um
ciclo que vai até o fim de nossas vidas, aquilo que estamos realizando
nesse momento.
Segundo a Bíblia o ser humano é dotado
do livre arbítrio, cada um pode decidir o que será e como
será sua vida. Sendo assim, todos têm o direito a serem medíocres,
a realizarem menos do que desejavam ou poderiam, não há
problema. O problema é que a maioria dessas pessoas são
“amargas” e o pior “amargam” a vida alheia e isso
é inconcebível.
Muitos se ressentem por não progredirem o quanto
gostaria – e a maioria não faz por onde progredir –
e tornam a vida daqueles a sua volta um suplício. A convivência
é difícil, cansativa, literalmente um sacrifício
conviver com alguém “indiferente”.
Cabe a cada um de nós decidir se quer ser mal
atendido, se quer conviver com pessoas medíocres, azedas ou –
me perdoem a expressão – literalmente fracassadas.
Nada o impede de aceitar, como nada o impede de não
aceitar ser ou conviver com pessoas indiferentes às mudanças
da vida.
Ainda existem aquelas pessoas que reclamam que antigamente
era melhor, que no seu tempo as coisas eram diferentes. Essas pessoas
estão presas a um passado que já não existe mais.
Como diz a frase no epitáfio de Voltaire “quem não
vive o espírito de seu tempo, vive suas mazelas”.
Pode parecer lugar comum ou até piegas, mas o
importante não é caminho que se trilhou ou o ponto a que
se chegou. O importante é o que se fez durante o caminho, como
a jornada foi aproveitada, e principalmente como ficou o caminho depois
que você passou.
Pense nisso antes de aceitar ser ou conviver com alguém
indiferente. Se tiver que fazer, faça bem feito, afinal você
está trocando um dia de sua vida por isso e, portanto no final
tem que valer a pena.
Professor Fábio L. Violin
Mestre em Estratégias e Organizações _ UFPR
Especialista em Planejamento e Gerenciamento Estratégico –
PUC-PR
Professor universitário, palestrante e consultor de empresas.
E:mail: flviolin@hotmail.com
ou flviolin@terra.com.br |