CASAL
DE TRÊS
Nelson Rodrigues
Colaboração do amigo Carlos Leite Ribeiro
do PORTAL CEN para o Dia do Sogro - 10 de março
O ENCONTRO
O sogro era um santo e patusco cidadão. Assim que o viu arremessou-se,
de braços abertos:
- Como vai essa figura? Bem?
Filadelfo abraçou e deixou-se abraçar. E rosnou, lúgubre:
- Essa figura vai mal.
Espanto do sogro:
- Por que, carambolas? - E insistia: - Vai mal por quê?
Caminhando pela calçada, lado a lado com o velho bom e barrigudo,
Filadelfo foi enumerando as suas provações, só
comparáveis ás de Job:
- É o gênio de sua filha. Sou desacatado, a três
por dois Qualquer dia apanho na cara!
Dr. Magarão assentiu, grave e consternado:
- Compreendo, compreendo. - Suspira, admitindo: - Puxou á mãe.
Gênio igualzinho. A mãe também é assim!
Súbito Filadelfo estaca. Põe a mão no ombro do
outro; interpela-o:
- Quero que o senhor me responda o seguinte: isso está certo?
É direito?
O velho engasga:
- Bem. Direito, propriamente, não sei. - Medita e pergunta: -
Você quer uma opinião sincera? Batata? Quer?
- Quero.
E o sogro:
- Então, vamos tomar qualquer coisa ali adiante. Vou te dizer
umas coisas que todo homem casado devia saber.
TEORIA
Entram num pequeno bar, ocupam uma mesa discreta. Enquanto o garçon
vai e vem, com uma cerveja e dois copos, dr.Magarão comenta:
- Você sabe que eu sou casado, claro. Muito bem. E, além
da minha experiência, vejo a dos outros. Descobri que toda mulher
honesta é assim mesmo.
Espanto de Filadelfo:
- Assim como?
O gordo continua:
- Como minha filha. Sem tirar, nem pôr. Você, meu caro,
desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude
é triste azeda e neurastênica.
Filadelfo recua na cadeira:
- Tem dó! Essa não! - E repetia, de olhos esbugalhados,
lambendo a espuma da cerveja: - Essa, não!
Mas o sogro insistiu. Pergunta:
- Sabe qual foi a esposa mais amável que eu já vi na minha
vida? Sabe? Foi uma que traia o marido com a metade do Rio de Janeiro,
inclusive comigo! - Espalmou a mão no próprio peito, numa
feroz satisfação retrospectiva: - Também comigo!
E tratava o marido assim, na palma da mão!
Uma hora depois, saiam os dois do pequeno bar. Dr. Magarão, com
sua barriga de ópera-bufa e bêbado, trovejava:
- Você deve se dar por muito satisfeito! Deve lamber os dedos!
Dar graças a Deus!
O genro, com as pernas bambas, o olho injetado, resmunga:
- Vou tratar disso!
O DESGRAÇADO
Não mentira ao sogro. Sua vida conjugal era, de fato, de uma
melancolia tremenda. Descontado o período da lua-de-mel, que
ele estimava em oito dias, nunca mais fora bem tratado. Sofria as mais
graves desconsiderações, inclusive na frente de visitas.
E, certa vez, durante um jantar com outras pessoas, ela o fulmina, com
a seguinte observação, em voz altíssima:
- Vê se pára de mastigar a dentadura, sim?
Houve um constrangimento universal. O pobre do marido, assim desfeiteado,
só faltou atirar-se pela janela mais próxima. Após
três anos de experiência matrimonial, eleja não esperava
mais nada da mulher, senão outros desacatos. E só não
compreendia que Jupira, amabilíssima com todo mundo, fizesse
uma exceção para ele, que era, justamente, o marido. Depois
de Ter deixado o sogro, voltou para casa desesperado. Chega, abre a
porta, sobe a escada e quando entra no quarto recebe a intimação:
- Não acende a luz!
Obedeceu. Tirou a roupa no escuro e, depois, andou caçando o
pijama, como um cego. E quando, afinal, pôde deitar-se, fez uma
reflexão melancólica: há dez meses ou mesmo um
ano que o beijo na boca fora suprimido entre os dois. O máximo
que ele, intimidado, se permitia, era roçar com os lábios
a face da esposa. Se queria ser carinhoso demais, ela o desiludia: "Na
boca não! Não quero!". Outra coisa que o amargurava
era o seguinte: a negligência da mulher no lar. Não se
enfeitava, não se perfumava. Deitado ao seu lado, ele pensava
agora, lembrando-se da teoria do sogro: - "Será que a esposa
honesta também precisa cheirar mal?".
MUDANÇA
Um mês depois, ele chega em casa, do trabalho, e acontece uma
coisa sem precedentes: a mulher, pintada, perfumada, se atira nos seus
braços. Foi uma surpresa tão violenta que Filadelfo perde
o equilíbrio e quase cai. Em seguida, ela aperta entre as mãos
o seu rosto e o beija na boca, num arrebatamento de namorada, de noiva
ou de esposa em lua-de-mel. Ele apanha o jornal, que deixara cair. Maravilhado,
pergunta:
- Mas que é isso? Que foi que houve?
Jupira responde com outra pergunta:
- Não gostou?
Ele senta confuso
- Gostar, gostei, mas... - Ri: - Você não é assim,
você não me beija nunca.
Jupira tem um gesto de uma petulância que o delícia: vem
sentar-se no seu colo, encosta o rosto no dele. Filadelfo é acariciado.
Acaba perguntando:
- Explica este mistério. Aconteceu alguma coisa. Aconteceu?
Ela suspira:
- Mudei ora!
SOFRIMENTO
A princípio, Filadelfo conjeturou: "É hoje só".
No dia seguinte, porém, houve a mesma coisa. Ele coçava
a cabeça: "Aqui há dente de coelho!". Coincidiu
que, por essa ocasião, os seus sogros aparecessem para jantar.
Dr.Magarão, enquanto a mulher conversava com a filha, levou o
genro para a janela: "Como é? Como vai o negócio
aqui?"
Filadelfo exclama:
- Estou besta! Estou com a minha cara no chão!
O velho empina a barriga de ópera-bufa:
- Por quê?
E o genro:
- Tivemos aquela conversa. Pois bem. Jupira mudou. Está uma seda;
e me trata que só o senhor vendo!
Ao lado, mascando o charuto apagado, o velho balança a cabeça:
- Ótimo!
- O negócio está tão bom, tão gostoso, que
eu já começo a desconfiar!
O sogro põe-lhe as duas mãos nos ombros:
- Queres um conselho? De mãe pra filho? Não desconfia
de nada, rapaz. Te custa ser cego? Olha! O marido não deve ser
o úlrimo a saber, compreendeu? O marido não deve saber
nunca!
LUA DE MEL
Seguindo a sugestão do sogro, de não quis investigar as
causas da mudança da esposa. Tratou de extrair o máximo
possível da situação, tanto mais que passara a
viver num regime de lua-de-mel. Dias depois, porém, recebe uma
minuciosíssima carta anônima, com dados, nomes, endereços,
duma imensa verossimilhança. O missivista desconhecido começava
assim: "Tua mulher e o Cunha...". O Cunha era, talvez, o seu
maior amigo e jantava três vezes por semana ou, no mínimo,
duas, com o casal. A carta anônima dava até o número
do edifício e o andar do apartamento em Copacabana onde os amantes
se encontravam. Filadelfo lê aquilo, relê e rasga, em mil
pedacinhos, o papel indecoroso. Pensa no Cunha, que é solteiro,
simpático, quase bonito e tem bons dentes. Uma conclusão
se impõe: sua felicidade conjugal, na última fase, é
feita á base do Cunha. Filadelfo continuou sua vida, sem se dar
por achado, tanto mais que Jupira revivia, agora, os momentos áureos
da lua-de-mel. Certa vez jantavam os três, quando cai o guardanapo
de Filadelfo. Este abaixa-se para apanhar e vê, insofismavelmente,
debaixo da mesa, os pés da mulher e do Cunha, numa fusão
nupcial, uns por cima dos outros. Passa-se o tempo e Filadelfo recebe
a noticia: o Cunha ficara noivo! Vai para casa, preocupadissimo. E,
lá, encontra a mulher de bruços, na cama, aos soluços.
Num desespero obtuso, ela diz e repete:
- Eu quero morrer! Eu quero morrer!
Filadelfo olhou só: não fez nenhum comentário.
Vai numa gaveta, apanha o revólver e sai á procura do
outro. Quando o encontra, cria o dilema:
- Ou você desmancha esse noivado ou dou-lhe um tiro na boca, seu
cachorro!
No dia seguinte, o apavorado Cunha escreve uma carta ao futuro sogro,
dando o dito por não dito. Á noite, comparecia, escabreado,
para jantar com o casal. E, então, á mesa, Filadelfo vira-se
para o amigo e decide:
- Você, agora, vem jantar aqui todas as noites!
Quando o Cunha saiu, passada a meia-noite, Jupira atira-se nos braços
do marido:
- Você é um amor!
Seleção: Dimitri Kozma
“Casei com uma viúva que tinha uma filha
já na idade de casar. Meu pai, que ia visitar-nos amiúde,
apaixonou-se pela minha enteada e casou com ela. De sorte que minha
mulher ficou sendo sogra de seu genro e meu enteado.
Tempos depois, minha madrasta, filha de minha mulher,
teve um filho que ficou sendo meu irmão por ser filho do meu
pai e meu neto, por ser filho da filha da minha mulher. Portanto, eu
era avô do meu irmão. Mais tarde, minha mulher teve também
um filho, pelo que minha madrasta é irmã do meu filho
e também sua avó porque ele era filho de seu enteado.
Meu pai é cunhado do meu filho porque a irmã dele é
sua mulher; eu sou irmão do meu próprio filho, que também
é filho da minha avó. Sou padrasto da minha madrasta,
minha, mulher é tia do seu próprio filho, meu filho é
sobrinho do meu pai e eu sou avô de mim mesmo.”
Nota de Agradecimento
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