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GOTAS DE REFLEXÃO - EVANGELHO DOMINICAL

Colaboração Especial do Diácono José da Cruz - Homilias Dominicais

Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Comentário Exegético do Padre Ignácio - dos Padres Escolápios (extraído do site Presbíteros.com)
. Evangelho de 20/09/2009 - 25º Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 13/09/2009 - 24º Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 06/09/2009 - 23º Domingo do Tempo Comum


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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20.09.2009
25º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Verde

__ “Acolhimento: Condição para servir.” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! A primeira leitura trata do drama do justo odiado e cercado de morte pelos ímpios e malvados. Mas ele se considera seguro sob a proteção da mão de Deus. Seus perseguidores zombam dele e querem colocá-lo à prova. No Evangelho,Jesus revela que é ele o justo perseguido, revela também que irá morrer mas que, ao terceiro dia, irá ressuscitar. Ensina que no Reino dos Céus é fácil ocupar o primeiro lugar, basta que aqui, na terra, a gente se coloque em último lugar, servindo a todos, assim como ele mesmo fez, a ponto de dar a própria vida para salvar até quem o estava torturando.

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

SALMO RESPONSORIAL Sl 54(53): - "É o Senhor quem sustenta a minha vida!"

SEGUNDA LEITURA (Tg 3,16-4,3): - "São Tiago fala de guerras, conflitos causados pela inveja e paixões. É preciso buscar a verdadeira sabedoria, cujos frutos são: a pureza, a docilidade, a misericórdia e a paz."

EVANGELHO (Mc 9,30-37): - "Jesus fala de sofrimentos, morte e ressurreição, enquanto os apóstolos estão preocupados em saber quem será o primeiro no reino. Será o primeiro quem for o último e servidor de todos."



- "...."
    (por Diácono José da Cruz)

... Infelizmente não recebemos nessa semana a colaboração do Diácono José da Cruz...

José da Cruz é diácono permanente
da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim
e-mail:cruzsm@uol.com.br


Comentário Exegético - XXV Domingo do Tempo Comum (Ano B)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Segunda Leitura - (TIAGO 3, 16-4, 3)

INTRODUÇÂO: Tanto para a convivência fraterna, dentro da comunidade cristã, como para a relação desta com o mundo externo, devemos optar entre dois estilos: rivalidade invejosa e litigante, ou a paz que gera justiça, entre ambição de poder ou diaconia fraterna. Santiago assinala a origem das discórdias comunitárias: a codícia e a ambição, que nascem do egoísmo e da satisfação das paixões próprias. A Sabedoria verdadeira, que depende da infusão da ciência divina, impele o homem para a paz e a concórdia. A sabedoria humana nasce das paixões do homem caído e contribui à desordem que hoje impera no mundo. Qual deve ser a nossa escolha?

ORIGEM  DOS CONFLITOS: Onde,pois, inveja [zelos=zelus] e contenda [erzitheia=contentio], lá confusão e toda obra iníqua. [Ubi enim zelus et contentio ibi inconstantia et omne opus pravum.]

INVEJA: Definiríamos zelos como uma rivalidade invejosa e ciumenta.

A CONTENDA: Epitheia é o desejo de ocupar os primeiros lugares de promoção e luta inglória para tal fim. Como vemos em Fp 2, 3. Em 1Cor 3, 3 temos quase os mesmos termos: zelos entre os fiéis. Que acabam em contenda: Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem?
CONFUSÃO: Akatastasia, cujo significado é desordem, distúrbio, confusão. No evangelho de Lucas temos o único lugar em que aparece com a tradução de revoluções: Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos assusteis; pois é necessário que primeiro aconteçam estas coisas, mas o fim não será logo.
OBRA INÍQUA: Faulos com o significado de fácil, ordinário, vil, mesquinho e, do ponto de vista moral, mau, baixo, iníquo. Com o significado de mal, como substantivo, temos Jo 3, 20: Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras.

A SABEDORIA: Porém, a sabedoria [sofia=sapientia] do alto [anöthen=desursum] principalmente é pura [agnë>=pudica], depois pacífica [eirënikës=pacifica], indulgente [ epieikës=modesta] tratável [eupeithës=suadibilis], cheia [mestë=plena] de misericórdia [eleous=misericórdia] e de bons frutos e imparcial [adiakritos=non judicans] e sem hipocrisia [anupokritos=sine simulatione]. [Quae autem sursum est sapientia primum quidem pudica est deinde pacifica modesta suadibilis plena misericordia et fructibus bonis non iudicans sine simulatione.] O apóstolo Tiago aqui revela uma série de qualidades inerentes à sabedoria divina que é participada pelos homens santos.

SABEDORIA: Sofia No seu significado profano é ciência prática das coisas necessárias para a vida, bom senso, juízo, siso, critério, sensatez. Especificamente, em se tratando de coisas divinas seria o conhecimento do Deus único e de seus desígnios na economia humana. Aparece pela primeira vez em Mt 11, 19: Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por suas obras. Jesus queria dizer que os juízos dos homens estavam fora da verdadeira ciência de Deus e que suas obras (de Jesus) tão extraordinárias justificavam sua verdade de ser o representante de Deus. Esse era o saber no qual cresciam tanto João como Jesus desde  a mais tenra infância (Lc 2, 40 e 2, 52).
DO ALTO: Anothen com o significado de um lugar superior, especificamente do céu ou de Deus.Também pode ter o significado de, desde o início ou de novo. Mas aqui, logicamente significa da parte de Deus.
PURA: Agnë que excita reverência, venerável, sagrado. Também puro, casto, modesto, imaculado, sem mancha. Em 2Cor 11, 2: vos desposei como uma virgem pura a Cristo. O latim pudicus significa recatado, honesto, casto, virtuoso.
PACÍFICA: Eirënikës pacífico, amante da paz.
INDULGENTE: Epieikës apropriado, conveniente, justo, razoável, moderado.
TRATÁVEL: Eupeithës dócil ou fiável e persuasivo; o latim traduz como dócil.
CHEIA: Mestos com o significado de  cheio, transbordante ou farto, como vemos em Mt 23, 28:pareceis justos aos homens, mas, por dentro,estais cheios de hipocrisia e iniquidade. Traduziremos, pois, a sabedoria esta cheia de misericórdia e de bons frutos.
MISERIÓRDIA: Eleos é a virtude pela qual temos compaixão dos necessitados de modo a socorrê-los.
IMPARCIAL: Adiakritos sem ambiguidade, sem dúvidas. É a única vez que a palavra é encontrada no NT.
SEM HIPOCRISIA: Anupokritos sem fingimento, sem hipocrisia, sem disfarce,  sincero. Como vemos a sabedoria, procede de Deus e tem como atributos o amor à verdade e a compaixão para com os homens. O Papa atual dirá, certamente inspirado, a frase de Caritas in Veritate: O amor manifestado na verdade. Ou o amor que unicamente é sincero tem sua base na verdade.

A CONDUTA: Pois o fruto da boa conduta [dikaiosuvës=iustitiae] é semeado em paz aos que promovem a paz (18). Fructus autem iustitiae in pace seminatur facientibus Deus pacem.
BOA CONDUTA: Dikaiosunëé integridade de conduta, virtude, retidão no pensar, sentir e obrar. Paulo, assim como usou pistis (fidelidade) no sentido de fé, usou dikaiosunë no sentido de ser purificado e aceito por Deus , como um homem sobre o qual o sangue de Cristo limpou as impurezas do pecado. Assim, em Rm 3, 22: a justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os crentes, sem distinção alguma.
A PAZ: Eirënë é a palavra paz em grego clássico, significando ausência de conflitos, mas que, na literatura bíblica, tem um sentido muito mais amplo. Se em termos clássicos denota ausência de conflitos, a paz, segundo a promessa de Deus, era o perdão e, com ele, conseguida a amizade divina, a obtenção dos bens materiais e espirituais correspondentes às promessas feitas por Deus a seu povo.

OS PACÍFICOS: assim traduzem os evangelistas os que em termos gregos literalmente devem ser traduzidos por: os que constroem a paz, e que temos traduzido por promovedores ou trabalhadores em favor da paz. Essa paz que os discípulos deviam oferecer a seus hóspedes que bem os recebessem segundo Mt 19, 13: se, com efeito, a casa for digna, venha sobre ela a vossa paz; se, porém, não o for, torne para vós outros a vossa paz.

ORIGEM DAS CONTENDAS: De onde lutas [polemoi=bella] e contendas [machai=lites] entre vós? Não disso: dos vossos prazeres [ëdonôn=concupiscentiis], os que labutam [strateoumenôn=militant] em vossos membros [melesin=membris]. [Unde bella et lites in vobis nonne hinc ex concupiscentiis vestris quae.] Falar de guerras e rumores de guerras.
CONTENDAS: O grego Machê significa batalha, contenda, combate e, em termos de relações humanas, disputas, rixas, brigas.
DISSO: Enteuthen daí, daqui, ou por outro lado. Mt 17, 2: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará.Ou Jo 19, 18: crucificaram-no e com ele outros dois, um de cada lado.
PRAZERES: Ëdonë grega significa prazer ou desejo libidinoso. Lemos em Lc 8, 14: a semente que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias,foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida.
LABUTAM: Strateuomai guerrear ou fazer uma expedição, uma razzia guerreira, lutar. O melhor exemplo é 1 Cor 9, 7: Quem jamais vai à guerra, à sua própria custa?
MEMBROS: Melos um membro, especialmente do corpo humano.É clássica a citação paulina em Romanos 6:13: nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça. E de modo especial em Rm 7, 23: mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Como Paulo, Tiago opõe a natureza [o psiquikos paulino] à alma dirigida pelos impulsos do Espírito [o pneumatikos]. Aquela entra dentro da sabedoria humana com todas as consequências de divisão e contendas e esta, dominada e dirigida pela sabedoria que provém de Deus, é pacífica e misericordiosa. É questão de ver em nossas consciências se realmente pertencemos a uma ou a outra classe de humanidade.

OS FRUTOS DA AMBIÇÂO: Ambicionais [epithumeite=concupiscitis] e não temeis, matais, invejais [zëloute=zelatis] e não podeis obter [epituchein=adipisci] pelejais [machesthe=litigais] e guerreais [polemeite=belligeratis] porém não tendes pois o não pedis [aitesthai=postulatis]. [concupiscitis et non habetis occiditis et zelatis et non potestis adipisci litigatis et belligeratis non habetis propter quod non postulatis.]
AMBICIONAIS: Epithumeö: literalmente, despejar-se sobre uma coisa: dai, cobiçar, pretender loucamente.
INVEJAIS: Zëloö: invejar, cobiçar, presenciar com desgosto o bem alheio. Um exemplo_At 7, 9: Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no para o Egito.
OBTER: Epitugchanö: obter, alcançar, conseguir, lograr, adquirir. Das cinco vezes que a palavra sai, temos este exemplo em Romanos 11:7  Que diremos, pois? O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou.
PELEJAIS: do verbo Machomai, lutar, combater, pelejar, e em sentido não material, disputar, brigar, como em Jo 6, 52: Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua própria carne?
CONTENDEIS: Polemeö fazer a guerra, lutar como vemos em Ap 2, 16: contra eles pelejarei com a espada da minha boca.
PEDIS: Aiteö pedir, implorar, suplicar. Sai 71 vezes e como exemplo temos Mt 5, 42: Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes. Neste versículo, Tiago, ao mesmo tempo que critica condutas erradas, dá a razão pela qual os pedidos são inúteis: são pedidos de coisas iníquas como ambição, cobiça, disputas, triunfos sobre inimigos reais ou imaginários. É impossível que Deus conceda semelhantes rogos que estão fora de seus planos de amor e concórdia, como temos visto que era sua sabedoria no início do texto.

POR QUE NÂO SOMOS OUVIDOS: Pedis e não recebeis porque pedis de modo errado com o fim de esbanjar [dapanësëte=insumatis] nos vossos desejos [ëdonais=concupiscentiis]. [Petitis et non accipitis eo quod male petatis ut in concupiscentiis vestris insumatis.]
ESBANJAR: Dapanaö gastar, desperdiçar, esbanjar.
CONCUPISCÊNCIA: Ëdonë: prazer, lascívia, concupiscência. A petição, segundo o Senhor, deve ser feita em conformidade com os planos de Deus. Lemos em Mt 6, 8: Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o  que tendes necessidade, antes que lho peçais. Simplesmente quer dizer que devemos pedir as coisas necessárias e não as que formam parte de nossos caprichos. Jesus, na oração do horto insistia: Meu Pai, se esta taça não pode passar sem que eu a beba, faça-se a tua vontade (Mt 26, 46).E o que nos pede o Senhor a todos nós como verdadeiros discípulos que pedem como orar é: Seja feita tua vontade tanto no  céu, como também na terra (Mt 6, 10).

Evangelho

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM (Mc 9,30-37)

O VERDADEIRO MESSIADO

AS DUAS PARTES: No evangelho de hoje podemos distinguir duas partes diferentes; porém, ambas com uma base comum. A primeira é a segunda predição de Jesus sobre sua sorte definitiva em Jerusalém, cuja viagem acabava de se iniciar. A segunda é a lição sobre quem é o melhor dos seus discípulos. Na realidade, podemos unir ambas sob o conceito de que é preciso perder a vida para ganhá-la definitivamente (Mc 8,35). Jesus dá com sua própria vida o exemplo paradigmal do que acabava de afirmar como Mestre. Jesus morre como um escravo, o servidor mais humilde,  para servir de sacrifício pelos pecados de toda a humanidade, sem distinção. Na sua morte, como aconteceu no seu nascimento, Jesus se coloca no último lugar como serviço à humanidade. Falando de sua morte, um autor dizia que Jesus morreu duas vezes: materialmente como consequência dos sofrimentos da cruz, que era uma morte lenta e a mais cruel de todas como castigo (Cícero), e espiritualmente como homem honrado, pois foi rebaixado até o último lugar: como um maldito, segundo a lei,  para os judeus ( Dt 21,23 e  Gl 3,13), e como um proscrito e malfeitor para os greco-romanos( Lc 22,37). De ambas as mortes ele se livrou por meio de duas ressurreições: a física e a moral; de modo que a cruz que era símbolo de maldição e estupidez se tornou símbolo da árvore da vida para todo crente que olha Jesus, reinando desde a mesma como Senhor.

A SEGUNDA PREDIÇÃO: E tendo partido dali passavam por meio da Galileia e não queria que alguém o conhecesse (30). Porque ensinava os seus discípulos e lhes dizia: O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens e o matarão; mas três dias depois da morte, ressuscitará (31). Et inde profecti praetergrediebantur Galilaeam nec volebat quemquam scire. Docebat autem discipulos suos et dicebat illis quoniam Filius hominis tradetur in manus hominum et occident eum et occisus tertia die resurget.

DALI: Era o monte Tabor, que, segundo a tradição, esta no sul da Galileia perto da Samaria, dominando o vale de Jezreel, sobre o qual se eleva como 400 m, solitário. Jesus está a caminho de Cafarnaum. O ensino agora era real e sem parábolas. Mesmo assim, os discípulos, os que sempre o acompanhavam, cujo número não estava limitado aos doze, não entendiam a nova linguagem do mestre e Jesus repetiu até três vezes a nova doutrina. Era essencial que entendessem sua missão em termos reais e verdadeiros; pois, do contrário, era inútil seu ensinamento, por não compreenderem a realidade de sua verdadeira missão como Messias, o Ungido, o Cristo de Deus. Em Jerusalém, tanto ele como os doze esperam o triunfo, a exaltação como Messias. Os discípulos tinham recebido duas lições sobre o tema: uma imediata à resposta de Pedro sobre o messiado de Jesus (Mc 8,31) e a outra no monte da transfiguração, quando, entre duas testemunhas proféticas, se falava de sua morte (Lc 9,31), se bem que nesta última, só três deles estavam presentes.

SERÁ ENTREGUE: Comparando as três predições (Mc 8,31; 9,31 e 10,33) vemos que esta segunda é a menos detalhada. No lugar dos membros do Sinédrio ou Grande Conselho (anciões, chefes sacerdotais e escribas de 8,31 ou chefes sacerdotais e escribas para ser condenado à morte de 10,33), temos unicamente que será entregue nas mãos dos homens.

FILHO DO HOMEM: Há uma clara distinção entre o Filho do Homem, representante do verdadeiro homem, por Deus querido e criado e os outros homens que seguem critérios contrários ao da divindade. Aquele é rejeitado pelas autoridades religiosas e políticas de Israel e entregue aos homens que eram considerados inimigos de Deus, os gentios de 10,33. Tanto os judeus que o condenam, como os gentios que o matam, eram os homens que agem fora dos mandatos divinos, mas não fora do seus desígnios, porque a morte de Jesus era um fato necessário ( o dei grego, que pode ser traduzido por estava escrito, decretado).

RESSUSCITARÁ: O triunfo final só se alcança com a derrota prévia; a vida eterna só se consegue com a morte da temporal. É a grande lição não só proveniente de Jesus como exemplo, mas de todos os que desejam alguma coisa permanente  e duradoura. É o que o Mestre afirma continuamente: quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, vai salvá-la (Mt16,25).

IGNORÂNCIA DOS DISCÍPULOS: Porém, eles não entendiam [ëgnousin=ignorabant] a mensagem [rëma<4487>=verbum] e temiam interrogá-lo. [at illi ignorabant verbum et timebant eum interrogare.] O verbo Agnoeö embora admita a acepção de ignorar, é melhor traduzido por não entender. A palavra Rëma distingue-se do logos comum, porque esta é uma palavra que não leva incluída uma profecia ou mensagem. Já rëma é a palavra de Deus, aquela que inclui uma  mensagem divina, uma proposta de Deus.Não de pão unicamente vive o homem , mas de toda palavra que sai da boca de Deus (Mt4, 4).

O TEMOR: É o mesmo temor que se apoderou dos discípulos quando viram Jesus comandar o mar e o vento (Mc 4, 41).

EM CASA: E vieram  em Cafarnaum e chegados em casa, perguntou-lhes: Que, no caminho, entre vós discutíeis?(33). Eles, porém, calaram entre eles; porque discutiram no caminho quem (o) maior. [Et venerunt Capharnaum qui cum domi esset interrogabat eos quid in via tractabatis. At illi tacebant siquidem inter se in via disputaverant quis esset illorum maior.]

O SILÊNCIO: O evangelista, que descreve a ruindade dos discípulos, para poder apresentar a grande lição de Jesus, diz que a vergonha tomou conta dos mesmos porque não era uma razão suficientemente honrosa a causa de sua decisão. E, como verdadeiros culpados, ao serem interrogados pelo juiz de todos os homens, calaram. Não existiam razões nem desculpas.

A LIÇÃO: Então, tendo-se assentado, chamou os doze e diz-lhes:Se alguém quiser ser primeiro será último de todos e diácono de todos. [Et residens vocavit duodecim et ait illis si quis vult primus esse erit omnium novissimus et omnium minister]

SENTANDO-SE chamou os doze. Era a clássica postura dos mestre de Israel. Assentavam-se sobre um coxim ou almofada, enquanto os discípulos rodeavam o mestre sentados em círculo no chão cruzando as pernas. Jesus dá, pois, aqui uma lição magistral: Se alguém quer ser primeiro, será último de todos e servidor (diakonos) de todos. A tradução é o mais literal possível, pois pretende respeitar a força do original grego, dificilmente exprimida em traduções livres. Também a palavra diakonos indica um serviço voluntário à diferença de doulos que era o escravo propriamente dito. Diaconia era principalmente o serviço da mesa.

O PAIDION: E tomando uma criança [paidion=puerum]  , colocou-a de pé no meio deles e tendo-a abraçado [enagkalisamenov =complexus], lhes disse: Se alguém um das tais crianças receber no meu nome, a mim recebe; e quem a mim receber não a mim recebe mas a quem me enviou. [Et accipiens puerum statuit eum in medio eorum quem cum conplexus esset ait illis Quisquis unum ex huiusmodi pueris receperit in nomine meo me recipit et quicumque me susceperit non me suscipit sed eum qui me misit.]

PAIDION: A palavra grega não tem um significado único e esclarecedor. Geralmente é traduzida por menino nos seus primeiros anos, um brotinho em português. Como pode ser uma criatura tão frágil e pequena, paradigma do verdadeiro discípulo de Cristo? Veremos os dois significados, maiormente admitidos pelos exegetas desta palavra: 1o) O menino que Jesus tomou em seus braços era um brotinho de dois ou três anos. 2o) Alguns modernos, ao parecer sem muita lógica,  traduzem o Paidion por criado, melhor servo. Porém para este último significado temos o Pais grego  para o masculino (ver Mt 8,2 e Lc 7,2) e Paidiske para o feminino(Mc 14, 66). Optamos, pois,  pelo 1o significado: um broto de poucos anos.  Marcos emprega o Paidion para a filha de Jairo em 5,39-41. A tradução escolhida pelas bíblias portuguesas é criança e o Talita de Marcos, no mesmo contexto, com certeza a palavra original indica que era uma adolescente: damsel como traduz a bíblia de K James, muchacha em espanhol, fanciulla em italiano, puella em latim e karasion em grego. De tudo isso deduzimos que o Paidion é um vocábulo geral que dificilmente nos dará a chave para saber de que idade era  o menino. Porém, o verbo grego seguinte enagkalisomai (tomar nos braços, o complexus latino) indica que a criança era, como dizem os italianos, um bambino, um menino de dois a três anos. Essa criancinha, totalmente dependente e impotente por si mesma, é o motivo da lição maravilhosa de Jesus: Quem recebe a uma criança semelhante a esta  é a mim que recebe. Mas Mateus (18,1-5), o grande catequista, parece que estende a lição de Jesus, tomando como miniparábola a criancinha: Se não vos converterdes e não vos tornardes como as criancinhas, não entrareis no reino dos céus.

DE QUE É PARADIGMA UMA CRIANCINHA? De todo aquele que quer entrar no reino. Para isso devemos nos tornar como criancinhas. Qual é a qualidade da mesma que nos transforma no modelo apontado por Jesus? Evidentemente Ele nos dá a solução em Mt 18, 4: Se tornar pequeno (ínfimo podemos dizer), (humiliaverit se, humilhar-se do latim), esse é o maior no reino. Paulo explicará a vida humana do Logos dizendo que se esvaziou a si mesmo da divindade… para se tornar pequeno (ínfimo) e obediente até a morte e morte de cruz (Fl 2,7-8). Em ambos os casos, usa-se o verbo tapeinoö que significa rebaixar, se tornar insignificante e talvez o último. Nos tempos de Jesus, a criança ocupava o último lugar na escala social, praticamente sem valor, detrás dos escravos e das mulheres. Este é, pois, o ponto de comparação e não a candidez ou falta de maldade de pensamento da criança. Por isso dirá Jesus que se não recebemos o reino como um Dom, algo indevido, como um presente de Deus, como recebe o menino a vida e a comida dos pais, não podemos entrar no reino. O homem nem pode dizer que está melhor preparado, nem afirmar que ele deve ser escolhido sendo melhor que um outro. A graça divina precede, acompanha e termina a vida humana segundo seus planos inescrutáveis, porque olhou com bondade a insignificância de sua escrava, como afirma Nossa Senhora (Lc 1,48).

PISTAS: 1ª) Os discípulos pensavam que o Reino de Cristo, à diferença do Reino de Deus, este final e definitivo, era terrestre, como o de Davi e devia se manifestar imediatamente em Jerusalém para onde estavam se dirigindo. Porém, nos planos divinos, estava a morte de Jesus como início do seu Reino. Era a exaltação, como João denomina a crucifixão contra a maldição, vista pela lei, ou a vergonha contemplada pelos gentios. Daí que existisse entre eles a disputa de quem devia ser o preferido na escala do Reino.

2ª) Os planos de Deus, um Deus justo, encontram a justificação do pecador no fato de que o Filho, inocente, pague um preço mais do que satisfatório para que o perdão seja mais do que generoso. O sofrimento e o sangue de quem era Filho único, paga pelo perdão de quem era inimigo e quer ser reconhecido como filho.

3ª) O orgulho é um dos pecados mais comuns entre os homens: É  querer ser mais, ter mais, sobressair mais do que os outros. Merecemos -pensam- algo melhor do que nos tocou em sorte e atualmente possuímos. Foi o pecado do anjo rebelde. Foi a tentação da liberdade e superioridade proposta pela serpente no paraíso.

4ª) Porém, o evangelho apresenta uma outra solução: A autêntica grandeza está em servir, porque escolhemos o último lugar e assim entregamos a vida, perdendo-a aparentemente. A grandeza está em dar, não em receber; em obedecer e não em mandar e dominar. Há algum serviço que possamos emprestar, alguma gentileza com a qual possamos ajudar o próximo, alguma contribuição que devamos dar para fazer o próximo mais feliz?

5ª) A criancinha representa o impotente, o que não pode retribuir, o verdadeiramente necessitado. Tem sido ela -a criança- a figura de Cristo que guia nossos interesses, domina nossas preferências ou ilumina nossos passos? As palavras de hoje são dignas de serem ouvidas, merecem ser meditadas e principalmente devem ser imitadas.



13.09.2009
24º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Verde

__ “A loucura da cruz: mensagem de esperança.” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! Neste domingo, o segundo do mês da Bíblia, a mensagem é sobre o sofrimento que acompanha o profeta em sua missão. A Palavra de Deus, muitas vezes, e em muitos ambientes, encontra resistência. Deus pede transformação e conversão, mas isto não agrada a muita gente. Então, como o ímpio não pode atingir a Deus, procura atingir o seu mensageiro. Como ouviremos na primeira leitura, o servo de Deus não deve correr nos momentos difíceis, porque Deus não o abandonará jamais. Jesus mesmo profetiza no Evangelho que ele não passará sem sofrimento e morte, mas vencerá pela ressurreição. Isto faz parte da vida daquele que quer transformar o mundo e trazer vida para os demais. Que a Bíblia seja para nós, realmente, o livro que contém a Palavra de Deus.

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

SALMO RESPONSORIAL Sl 115(114): - "Andarei na presença de Deus, junto a ele, na terra dos vivos."

SEGUNDA LEITURA (Tg 2,14-18): - "São Tiago nos diz que fé sem obras é morta. Ninguém que se diga cristão pode ficar com os braços cruzados."

EVANGELHO (Mc 8,27-35): - "Jesus confirma ser o Messias e diz que o sofrimento e a morte fazem parte de sua missão. Todo o que quiser ser discípulo deverá também tomar sua cruz e segui-lo."



- "O CRISTO DOS DESILUDIDOS!"
    (por Diácono José da Cruz)

Com certeza esse evangelho do 24º. Domingo do Tempo Comum, traz em nosso coração essa pergunta tão inquietante: O que significa perder a vida por causa de Jesus e do seu evangelho? Quem é Jesus, e o que significa a afirmativa de que é preciso “Perder para ganhar”?.

Nos primeiros três séculos da Igreja primitiva, quando o Cristianismo não estava atrelado ao Império, tivemos centenas de mártires que derramaram seu sangue na arena, por causa do testemunho. Nas comunidades de Marcos a perseguição do império romano era muito intensa e os que eram pegos e não renunciavam a fé em Jesus, eram presos e acabavam também mortos. Na América Latina não foram poucos os mártires, que tombaram defendendo o direito e a justiça do povo sofrido e injustiçado.

Será que é deles que o evangelho está falando, no sentido literal? Será que não podemos aplicar hoje ás pessoas de nossas comunidades essa expressão, de que elas também perdem a vida por causa de Cristo e do seu evangelho? Em certo sentido, é muito válido dizer que nossos agentes de pastorais, perdem a vida, quando se dedicam a tantos trabalhos estafantes, muitos até nem vivem mais para si mesmo, mas organizam suas vidas a partir da comunidade, e fazem isso com muita alegria e seriedade. Deixar de lado os interesses pessoais, para dedicar-se ao trabalho pastoral, sem dúvida é também perder a vida.

Entretanto, não é apenas isso, porque muitas vezes recebemos algo em troca, e nesse caso, se ganhamos e não estamos perdendo, o evangelho não se aplica, ainda que haja uma roupagem de trabalho pastoral, mas é só roupagem, pois no fundo a gente se apega ao cargo, ao poder, que sempre nos fascina, nas comunidades há certos coordenadores que “mandam” até mais que o padre, e o poder satisfaz ao nosso “ego”.

Jesus havia se dado conta de que a visão sobre o seu Messianismo, era equivocada. Com o objetivo de fazer a necessária correção, fez uma prova oral com seus discípulos, primeiro eles são indagados sobre o que o povão pensa a respeito dele, e ao saber que o povo o confundia com João Batista, Elias ou um dos profetas, parece que Jesus não demonstrou nenhuma preocupação, e foi direto ao assunto que mais lhe interessava: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. A resposta de Pedro foi corretíssima “Tu és o Messias!”. A questão é saber, de que Messias Pedro estava falando. Por isso, em seguida, Jesus revela o sentido do seu messianismo, que irá se consolidar no sofrimento, na rejeição, na morte e ressurreição.

Na visão de Pedro, no Messianismo de Jesus tudo vai dar certo e as coisas vão se resolver, as contas irão fechar, pois Jesus irá por ordem na casa, com o seu poder divino. Ninguém irá resisti-lo... Não é essa a ilusão que toma conta do coração de muitos cristãos em nossas comunidades? O Jesus do “tudo certo”, do “mar de rosas”, da “doce paz, da saúde, da prosperidade”, o Jesus da reviravolta, que só me dá vitória em cima de vitória, o Jesus que sempre me tira dos “enroscos” da vida. Esse não é o Jesus do Evangelho, mas o Cristo dos Desiludidos!

Encontrar sempre respostas prontas, caminhos largos, problemas resolvidos, portas abertas, nunca foi e nem será uma característica do cristianismo. Anunciar um Jesus assim é trair o projeto de Deus, é falsificar o evangelho, é ser Satanás, aquele que se opõe ao Reino do Céu. Infelizmente na pós-modernidade, muitas igrejas, sem raiz, sem história e nem tradição, idealizaram um Jesus produto do consumo, um Cristo que só abençoa os ricos e poderosos. Nessa teologia de fundo de quintal, os dois últimos versículos do evangelho desse domingo, são deixados de lado, pois não falam a linguagem da pós modernidade. Quem irá, nos dias de hoje, fazer marketing de um projeto que implique renúncia, cruz e sofrimento? Um projeto cuja proposta de Salvação seja pautada pelo desprezo á própria vida, deixando de lado até interesses particulares.

Proposta de Salvação que não fale em vitória, em sucesso, em prosperidade, não dá IBOPE, não lota templo, não dá audiência. Qualquer marqueteiro da atualidade teria a mesma reação de Pedro e repreenderia Jesus... Onde já se viu, começar um projeto prenunciando o fracasso da cruz?

O Messianismo de Jesus vislumbra sim, um mundo totalmente novo, mas ele não descarta a aspereza do caminho, as pedras do calvário, os penhascos, os espinhos, a ousadia de um sonho, que vai se construindo com os pés no chão da história, vivendo já no coração os valores desse reino que virá. O autêntico discípulo é aquele que, vislumbrando esse reino, descobre-o presente em Jesus que caminha com a sua igreja, e passa a viver cada minuto, hora e dia, apenas em função desse projeto, menosprezando todo e qualquer valor ou ideologia, que o mundo possa oferecer, porque crê sinceramente que nada é maior ou mais importante do que Cristo e a Boa Nova do Evangelho. É exatamente assim que o quadro se reverte, e a PERDA se transforma em GANHO, como ensina o evangelho... (24º Domingo do Tempo Comum)

José da Cruz é diácono permanente
da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim
e-mail:cruzsm@uol.com.br


Comentário Exegético - XXIV Domingo do Tempo Comum (Ano B)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Segunda Leitura

EPÍSTOLA DE TIAGO 2, 16-18

INTRODUÇÃO: Tiago fala claramente da inutilidade da fé que fica no plano intelectual sem se traduzir em obras. É tal a claridade do escrito, que Lutero rebaixou esta epístola à categoria de palha, ou seja, como diz o evangelho, própria para ser queimada e não lida (Mt 3, 12). Mas as das comparações, a do pobre a quem não socorremos [deste trecho] e a dos demônios que também acreditam, porém de nada vale sua fé, mas unicamente para sua condenação (Tg 2, 19), são tão válidas que a razão impõe sua verdade à fé sem contradize-la, mas reforçando-a. Somente as obras revalidam nossa fé e ao contrário se elas não existem essa fé é inútil.

A PALAVRA INÚTIL:Caso diga alguém dentre vós a eles: Ide em paz, aquecei-vos [thermainesthe=calefacimini] e fartai-vos [chartazesthe=saturamini], mas não lhes desse as coisas necessárias [epitedeia=necessaria] do corpo qual o proveito [ophelon=proderit] (dicat autem aliquis de vobis illis ite in pace calefacimini et saturamini non dederitis autem eis quae necessaria sunt corporis quid proderit.) No seu discurso parenético, Tiago fala de como devemos tratar o pobre sem discriminação. Agora, seguindo o exemplo por ele escolhido para confirmar a fé, usa de uma pequena parábola ou comparação: de que adiantam as palavras se não dão ao pobre o necessário em conforto e alimento?

AQUECEI-VOS: O verbo Thermaino significa esquentar ou esquentar-se. Sai no episódio de Pedro no pátio de Caifás em Mc 14,54 e no lugar paralelo de Lc 18, 18. As noites na altura de Jerusalém, no início da primavera eram frias e daí que Pedro buscasse o calor da fogueira.
FARTAI-VOS: O verbo Xortazo é o verbo usado por Mateus para o makarismo de 5, 6 daqueles que têm fome e sede e serão fartos. É  o verbo que descreve as multidões após a multiplicação dos pães e peixes nos capítulos 14 e 15. O mesmo verbo usado por Marcos , Lucas e João nas mesmas circunstâncias.
COISAS NECESSÁRIAS: Epitedeios é o adjetivo, que Tiago em neutro e plural transforma em nome: coisas necessárias para a vida. A palavra sai unicamente aqui com esse significado de necessárias para o corpo.
QUAL O PROVEITO?
Em Cor 15, 32 Paulo afirma que de nada valem sofrimentos e perseguições se os mortos não ressuscitam. Do mesmo modo, a fé sem obras é inútil: Que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo? (Tg 2. 14). É uma questão de salvação para o pobre, assim como as obras são também questão de salvação eterna que não depende da fé unicamente.

A FÉ MORTA: Assim, também a fé se não tiver obras [erga=opera], está morta [nekra=mortua] em si [kath eautën=in semet ipsam] (sic et fides si non habeat opera mortua est in semet ipsam.)
OBRAS: Erga a tradução é obras, as ações externas e visíveis que uma pessoa faz. Lemos em Sl 33,15 que Deus forma o coração de todos eles [os homens], que contempla todas as suas obras. Em Mt 5, 16 Jesus recomenda a seus discípulos: Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. As boas ações são a luz que irradiam os discípulos de Jesus. Especialmente será pelo amor mútuo que os homens reconhecerão a verdadeira doutrina evangélica: Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (Jo 13, 35). De modo que, podemos afirmar que é nas obras em si mesmas como em Mt 3, 8-9: MORTA: Nekros como se fosse um corpo morto a fé que não opera, que não leva a ação imitadora da divindade, nada vale. É um cadáver sem vida. Estamos feitos para fazer o bem, segundo os planos de Deus. Desde Gn 1,19 toda a obra de Deus era boa. E em Gn 4, 7 encontramos o conselho divino para todo homem nascido na terra: Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar. Sobre a necessidade de fazer o bem lemos em Isaías 1, 17: Aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Jesus nos declara a norma exata de como devemos julgar a conduta humana: Então Jesus lhes disse: Uma coisa vos hei de perguntar: É lícito nos sábados fazer bem, ou fazer mal? Salvar a vida, ou matar? De modo que não ajudar o necessitado equivale a matar. Paulo em Romanos tira a consequência eterna da conduta humana: A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção (Rm 2, 7), Logo em 2Ts 3,13, pedirá: Vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem. Como remate, Tiago afirma: Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado. Somos tão pequenos que nossa meta deve ser fazer uma ação boa cada dia. Salvaremos o dia embora nossa consciência possa nos pedir algo mais.  EM SI: Eautou si mesmo, próprio, seu. Não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão (Mt 3,9). Ou a mulher que tocou a borda do vestido e dizia consigo: Se só tocar seu vestido estarei curada.(Mt 9, 21). Kata, para, contra, em frente de, por. Eautou, ao ir unida a Kata que é uma preposição de significado contra [against], o significado da frase é o de concentrar-se em si mesmo sem sair, e podemos traduzir por isoladamente ou por si só. Podemos, pois, traduzir como morta dentro de si, no seu isolamento. Morto é não valer para nada. É ser inútil e até um peso  que deve ser carregado com dificuldade.

FÉ E OBRAS: Mas dirá alguém: tu tens fé, e eu obras tenho. Mostra-me [deicon=ostende] tua fé fora [chöris=sine] de tuas obras e eu te mostrarei, por meio de minhas obras, minha fé (sed dicet quis tu fidem habes et ego opera habeo ostende mihi fidem tuam sine operibus et ego ostendam tibi ex operibus fidem meam.)
MOSTRE-ME: Deiknuö mostrar, dar evidência, ou provar alguma coisa. Na realidade, como posso manifestar a minha fé, um ato interno, que não é ostensívo, nem pode ser notada exteriormente, a não ser pelas obras? Ou dá no mesmo ter fé que ser incrédulo? Tiago volta ao afirmado no versículo anterior: Para que serve a fé morta? E ainda prossegue nessa diatribe ao comparar a conduta do demônio que acredita em Deus, mas que em lugar de amar, tremem. Poderíamos alongar o argumento dizendo que os demônios aproveitam sua fé, a realidade da existência de Deus que eles conhecem, para fazer o mal. A fé, pois, que não chega a prática nada vale, nem pode ser chamada de verdadeira.

Evangelho

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM  (Mc 8, 27-35)

INTRODUÇÃO: Temos no evangelho de hoje um tema de evidente atualidade: imaginemos que a figura de Cristo pula das páginas do evangelho e se apresenta a nós para fazer a mesma pergunta que fez a seus discípulos (nós também somos seus discípulos): Quem sou eu para vocês? Evidentemente que a nossa resposta seria a mesma de Pedro, talvez mais matizada pela fé expressa de um crente do século XXI : o Cristo, Filho de Deus, como diz Mateus. E agora sem as limitações de intérpretes que falam de Filho com o sentido de uma realeza davídica, mas com o real de natureza única com o Pai. Até aí, tudo bem. Mas quando esse mesmo Cristo revelar sua condição humana como crucificado, seguramente que o rejeitaremos em nossas vidas como o rejeitou Pedro  na época da narração evangélica. Deveríamos então escutar a reprimenda de Jesus aos que rejeitam a cruz e querem salvar agora suas vidas sem nenhuma negação de si mesmos como nos pede o Senhor.

PRIMEIRA PERGUNTA: E saiu Jesus e os seus discípulos para as aldeias [kömas=castella] de Cesareia de Filipe e no caminho interrogava a seus discípulos dizendo-lhes: quem dizem os homens ser eu? (Et egressus est Iesus et discipuli eius in castella Caesareae Philippi et in via interrogabat discipulos suos dicens eis quem me dicunt esse homines.)
ALDEIA: o Kömes grego distingue-se da Polis e do agros. Polis era a cidade [city], lugar em que existiam as autoridades civis e militares, capitais dos diversos distritos; especialmente era o título de Jerusalém. Kömes era a aldeia ou vila onde se reuniam os camponeses para dormir e morar e finalmente agros era o campo em oposição à cidade. A vila romana era, na realidade, constituída como um cortijo andaluz: uma casa senhorial, centro de uma propriedade agrícola. Dividida em pars urbana, rustica e frumentaria, ou habitações, dos senhores, dos escravos e armazém de grãos e líquidos [vinho e azeite]. Finalmente, o Agros ou campos de cultivo. A isto podemos acrescentar o Erëmos ou lugar inabitado que facilmente é traduzido por deserto.
mapa2CESAREIA DE FILIPE: Cesareia era o nome comum de várias cidades. Essencialmente, na Palestina, existiam duas Cesareias: a de Palestina, cidade romana, fundada por Herodes o Grande, situada na costa do Mediterrâneo, 37 Km ao sul do monte Carmelo e 100 Km ao noroeste de Jerusalém; e a Cesareia de Filipe, cidade gentílica, situada no sopé do monte Hermom, no Antilíbano, na cabeceira principal do rio Jordão, 32 Km ao norte da Galileia. Distava 40 km de Betsaida [dois dias de caminho desta última]. A antiga Panion também Pânias, que hoje ainda subsiste com o nome de Baniyas numa aldeia das fontes do Jordão. Foi helenizada no século III aC e tinha uma população, também na região, que em sua maioria não era judia. Em 20 aC, Augusto a cedeu a Herodes, que nela construiu um grandioso templo dedicado ao imperador, feito de mármore branco, sobre uma rocha que dominava a cidade e a fértil planície da qual era capital a antigas Pânias, assim chamada porque perto da cidade existia uma gruta, dedicada desde tempos remotos, ao deus Pan ou Panion [deus dos pastores e das florestas]. A cidade foi ampliada e embelezada pelo tetrarca Filipe, que lhe deu o nome de Cesareia em honra de Tibério César. Por isso foi chamada de Cesareia de Filipe. A partir do século II foi chamada de Cesareia de Pânias e no século IV em diante, o termo Cesareia desapareceu, permanecendo apenas o antigo Pânias. O templo sobre a rocha evidentemente era um símbolo que Jesus não devia desperdiçar.

A PERGUNTA: Segundo o evangelho de Mateus, a tradução literal do versículo 13 seria: Quem me dizem os homens ser o Filho do Homem? Esse me [a mim] está sendo traduzido na vulgata latina, porém não nas versões vernáculas. Numa linguagem mais elaborada a tradução seria: quem dizem os homens que Eu, o filho do homem, sou? É notório que nas três recensões da pergunta dos três sinóticos a pergunta é a mesma na primeira parte: quem me dizem os homens [as turbas em Lucas] ser? Ou quem dizem os homens que eu sou? Se tomarmos unicamente Mateus, a pergunta seria sobre o Filho do homem. Que ideia tinha a gente sobre esta figura tão frequentemente usada por Jesus como unida ao Reino por ele pregado e presidido?
FILHO DO HOMEM: ‘O ‘yiós tou anthrópou é uma tradução grega de BEM ADÁM que ocorre 120 vezes no AT, das quais 96 em Ezequiel, e que é um sinônimo de homem. Em Ezequiel é a denominação que Javé dá ao próprio profeta e é sempre em vocativo. Representava a humanidade em contraste com Deus e aparentando a porção da mesma que sofreria a ira do mesmo. Grita e geme, ó filho do homem, porque ela [a notícia] será contra meu povo (Ez 21, 11). Nos salmos representa a fragilidade humana em comparação com a fortaleza de Deus (8, 4-6). Porém em Dn 7, 13 aparece um como, ou semelhante a um filho de homem [Kebar mas, 'os Yiós anthropou, quase filius hominis]. Ele provém do céu e é destinado a possuir o domínio universal. Jesus precisamente o aplica à sua vinda futura em Mt 24, 30 e lugares paralelos. No NT a frase, com uma exceção [quando Estêvão vê o filho do homem], é sempre achada em frases, pronunciadas por Jesus.  Mateus usa a frase 30 vezes, Marcos 14, Lucas 25 e João 13. O ponto crucial é precisamente este trecho do evangelho de hoje. A expressão, pois, Filho do homem é semítica e significa em princípio, um membro da comunidade humana, especialmente na sua fase de frágil mortal (Is 51, 12 e Jó 25, 6). A expressão Filho do homem se transforma em Daniel (7, 13 +) numa figura simbólica. De um significado plural [o povo dos eleitos] passa a tomar um significado singular como o Filho do homem [um homem] que recebe a glória e o poder que pertencem unicamente a Deus. Por isso foi dado a Ele domínio e glória e um reino, de modo que todos os povos, nações e línguas o servissem; seu domínio é um domínio para sempre, que nunca passará e seu reino é um reino que nunca será destruído. Neste último sentido, é o título preferido por Jesus, aparecendo setenta vezes na sua boca nos evangelhos. Nesta ocasião, Jesus queria saber qual era a opinião da gente sobre sua pessoa como pregador público de uma mensagem divina. Uma pergunta diretamente unida a seu rol como pregador de um reino que os discípulos esperavam fosse instaurado modo militari em Jerusalém, onde esperavam ir em breve. A figura cume desse reino era, sem dúvida, Jesus que a si mesmo se intitulava como Filho do Homem.

RESPOSTA DOS DISCÍPULOS: Eles, então, responderam: João o Batista; e outros, Elias; outros, porém, um dos profetas (Responderunt illi dicentes Iohannem Baptistam alii Heliam alii vero quasi unum de prophetis.)
A RESPOSTA:
Podemos dividir esta em duas partes bem diferenciadas: uma, a geral, dada pelo povo, que praticamente indica Jesus como um homem de Deus, especialmente como um profeta comparável aos grandes de Israel; a outra é a resposta particular dada por Simão Pedro. Vamos estudar ambas as respostas.
A) O Batista: A pregação de Jesus e dos discípulos era a mesma  de João: Arrependei-vos, o reino de Deus está próximo (Mt 3, 2) e oferecia um batismo como o do adusto homem do deserto (Jo 3, 22-23). O parecido  parentesco entre o Batista e Jesus (Lc 1, 36) talvez facilitasse a ideia de que Jesus era o Batista ressuscitado. Afirmava-se que João, o Batista, era Elias, pois a Escritura afirmava que o antigo profeta não tinha morrido, mas fora arrebatado aos céus no meio de uma tempestade de fogo (2Rs 2, 11). Essa era a razão pela qual se esperava a sua vinda.
B) Elias propriamente dito. Segundo a tradição, Elias escreveu uma carta depois de ser arrebatado (2 Cr 21, 12) dirigida ao rei Jorão de Judá por sua conduta idolátrica já que tinha como esposa uma filha do ímpio rei Acab de Israel. Supunha-se pois, que Elias voltaria antes do dia do Senhor, o dia da vingança e do castigo dos ímpios, dia da ira que está por vir (Jo 3, 7). Em Malaquias 3, 1 lemos: Eu vos envio meu mensageiro. Ele aplainará o caminho diante de mim. Por isso numa data posterior ao livro [após o ano 450 aC] identifica este mensageiro ou anjo, com Elias (seria no acrescentado capítulo 4, versículo 5, que não está no canônico Malaquias). Na sua complicada alegoria animalística da História, o livro apócrifo de Henoc (século II aC), descreve a aparição de Elias antes do juízo e da aparição do grande cordeiro apocalíptico. Isto é importante, visto que João falava do Cordeiro de Deus (Jo 1, 29). Em Eclo 48, 10, temos outra referência do século II aC: Tu que fostes designado nas censuras para os tempos a vir, para aplacar a cólera antes que ela se desencadeie, reconduzir o coração do pai para o filho (Lc 1, 17). Vistos os milagres que Jesus operava, os contemporâneos de Jesus pensavam que se não fosse Elias, que em vida realizou muitos e notáveis milagres, devia ser um profeta redivivo [aneste=despertado] pois a profecia tinha acabado e não era necessária nos tempos messiânicos.
C) Um profeta. Lucas dirá que é um dos antigos profetas, redivivo. De fato, os judeus distinguiam entre antigos profetas como Josué, Juízes, Samuel, Davi e os profetas compreendidos no reinado de Davi, e os últimos profetas, a começar por Isaías e terminar com Malaquias. A que profeta se referem os discípulos como porta-voz da vox populi? Talvez Samuel que já nos tempos de Saul se mostrou redivivo em 1 Sm 28, 12 diante da médium de Endor? Ou talvez Moisés, pois a ele comparam a atuação de Jesus como vemos em Jo 5, 45-46 e 6, 31-32. Na realidade, os enviados oficiais perguntam a João se ele não era o Profeta [como conhecido personagem, esperado nos tempos messiânicos] de Dt 18, 15-18. Pois Javé disse a Moisés: um profeta como tu, suscitarei do meio de teus irmãos. Por isso em 1 Mc 3, 45 aguardavam a vinda de um profeta que se pronunciasse a respeito. Este profeta, semelhante a Moisés, que deveria ser escutado em tudo (At 3, 22), era o próprio Jesus, coisa que o povo admitiu após a multiplicação dos pães (Jo 6, 14)  e na festa dos tabernáculos em Jerusalém (Jo 7, 40).

SEGUNDA PERGUNTA: Então ele lhes diz: Vós, porém, quem me dizeis ser eu? Tendo, pois, respondido Pedro diz-lhe: Tu és o Cristo (Tunc dicit illis vos vero quem me dicitis esse respondens Petrus ait ei tu es Christus.)
E VÓS? Diz-lhes: Vós, pois, quem dizeis que eu sou? Que ideia têm eles, seus discípulos, do Filho do homem? Ou seja que papel na vida pública, especialmente na vida religiosa, deve ter Jesus entre seus conterrâneos? Em qual dessas categorias deveria ser incluído o Mestre que foi seu guia e com o qual conviviam durante esse tempo? O apóstolo chefe é conhecido por diversos nomes entre os autores do NT.
A) Simão. O nome original do apóstolo era Simão, forma abreviada de Simeão [famoso]. De fato, seu nome completo, ou como diríamos hoje, seu DNA era Simão bar Jonas [Simão, filho de Jonas], que a vulgata conserva como Simon bar Iona. Já o quarto evangelista diz dele que era filho de João ['yiós Iöannou] (1, 42), e que a Vulgata traduz por filius Iona (?) que o próprio evangelista repete em 21, 15, como Simon Iöannou [Simão de João], com a Vulgata, agora traduzindo corretamente por  filius Ioannis ou de João. A dúvida existe: o pai era Jonas [pomba] ou João [favor de Deus]? Talvez a solução seja a diferença entre o aramaico e o hebraico em cuja escrita as consoantes de Jonas e João eram as mesmas, mas a pronúncia diferente. Jesus, sempre que fala com o apóstolo, usa o nome de Simão. Além do nome próprio ou, como dizem em inglês first name, temos outras personagens com o nome de Simão no NT: Simão, o zelotes, um dos doze (Mt 10, 4); Simão, o irmão do Senhor (Mt 13, 55); Simão, o leproso de Betânia (Mt 26, 6);  Simão, o fariseu (Lc 7, 40); Simão, o Cirineu( Mt 27, 32); Simão, pai de Judas, o Iscariotes (Jo 6, 71); Simão, mago (At 8, 9) e Simão de Jope (At 8, 18).  Com este nome de Simão é que Jesus o chama
B) Como Pedro em latim Petrus e em grego Petros. Uma única vez aparece na boca  de Jesus como vocativo ( Lc 22, 34). Esta única ocasião mais parece redacional que ipsissima verba Christi [as próprias palavras de Cristo]. Dentro da parte que poderíamos chamar redacional dos evangelhos, encontramos a palavra Pedro em Mateus 16 vezes, em Marcos 11, em Lucas 9,  em João 9 e 3 nos Atos.
C) Como Simão Pedro em Mateus 3, em Marcos 1, em Lucas 2, em João 17 e  em Atos 4.
D) Como Kefas [o aramaico por rocha] aparece em João 1, 42 e nas epístolas de Paulo, nas duas primeiras, Gálatas e 1 Corintios e  sempre na boca de Paulo. Deste nome podemos deduzir que a palavra usada por Jesus foi Kefas [rocha] e que, aos poucos, ela foi traduzida ao grego como Petros, com o mesmo significado; pois pedra seria lythos. Em latim petra também significa rocha, tendo lápis ou calculus o significado de pedra.

A RESPOSTA: Em nome dos doze, Simão responde: Tu és o Cristo [Ungido]. Vamos comparar esta resposta com a de Mateus: Tu és o Cristo o Filho do Deus vivente (Mt 16, 16), e a de Lucas: O Cristo do (sic) Deus. Ninguém duvida de que a resposta mais breve, a de Marcos, é a saída da boca de Pedro. A de Lucas pode ser redacional ao explicar a unção como feita pelo Deus único e a de Mateus uma explicação, como sempre, de um bom catequista, para entender as palavras do apóstolo e a bênção imediata de Jesus. Qual era o significado de Cristo [Christós em grego]? Logicamente devemos recorrer à palavra correspondente hebraica. Significa Ungido que seria a tradução da palavra aramaica Messiah. A palavra Messias era traduzida como Christos em grego (Jo 1, 41). Originariamente era uma referência de Há Kohen há Massiah [o sacerdote, o ungido] ou seja, o Sumo Sacerdote, em cuja cabeça tinha sido derramado o óleo, quando consagrado como líder espiritual da comunidade (Lv 4, 3). Daí que o Messias era alguém investido por Deus de uma responsabilidade espiritual especial. Nos tempos de Jesus, existia a ideia de que um descendente da casa de Davi seria o Messias que redimiria a humanidade; tradição que provinha dos tempos de Isaías. E foi o profeta Daniel em 9, 25 que deu uma nova esperança a esse ungido de Deus. Essa tradição encarava o Messias, não como um ser divino, mas apenas como um homem, um grande chefe, reformador social, que iniciaria uma era de paz perfeita. É o que os anjos prometeram aos pastores ao anunciarem o nascimento do Salvador que era o Messias (Lc 2, 14). O termo Filho de Deus vivo era título Messiânico, assim como Santo de Deus (Jo 6, 69). O nome de Filho de Deus é uma expressão usada por Oséias em 2, 1: Aos filhos de Israel…se lhes dirá filhos do Deus vivo, o qual concorda perfeitamente com a frase de Mateus e a confissão de Marta: Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que vem a este mundo (Jo 11, 27). O Santo [consagrado] de Deus, era também um título Messiânico, como vemos em Jo 6, 6, numa confissão feita pelo próprio Pedro. Talvez esta confissão de Pedro no quarto evangelho seja uma réplica mais ou menos exata da que hoje estudamos em Mateus. Para um judeu, o Messias era produto de uma eleição divina que confiava uma missão especialíssima ao seu ungido. Para um grego ou um romano, o título ia além da personalidade humana do Messias. Sabemos que os judeus admitiram Jesus como Messias [Chrestós], título que para os gentios era traduzido como Senhor [Kyrios]. Pois Deus o constituiu Senhor e Cristo [Kyrion autón kai Christon, de At 2, 36]. Sabia Pedro o significado substancial de suas palavras? Pelo que vemos em 16, 22, não. Porém, Jesus se serviu das mesmas para fundar sua Igreja. A palavra Messias significa Ungido. Portanto, dizer tu és o Chirstós [Ungido] é a mesma coisa que dizer tu és o Messias. Quanto às palavras O Filho do Deus Vivente [muito melhor do que vivo], que seria dizer o mesmo que Filho do Deus verdadeiro, porque os outros deuses não existem, não vivem; os autores duvidam se são verdadeiramente palavras de Pedro ou foram acrescentadas pela tradição como parêntesis explicativo para distinguir entre o Messias, filho de Davi, um rei de âmbito regional, e o Messias, Filho do verdadeiro Deus, Senhor, portanto, do Universo. As razões aludidas pelos exegetas baseiam-se fundamentalmente nos lugares paralelos de Marcos [tu és o Ungido] e de Lucas [és o Ungido de Deus]. A declaração de filiação divina tem um amplo significado na tradição judaica, já que todo rei era considerado filho de Deus por virtude de seu ofício, como representante divino perante o povo. Mateus, como seus dois paralelos sinóticos, proíbe aos discípulos que digam a alguém que ele [Jesus] era o Cristo. Se o sentido de Filho de Deus fosse estrito, como o entendemos atualmente, a proibição devia recair sobre esta segunda parte, Jesus como Deus, muito mais escandalosa e até blasfema para os contemporâneos, como vemos que a contemplou Caifás (Mt 26, 36). Existia uma aposição entre Messias e Filho de Deus. O pontífice conjura Jesus, em nome do Deus, do vivo [notar a coincidência dos termos] a que declarasse se Ele era o Messias, o Filho de Deus. E então Jesus explica a sua transcendência, dizendo estará sentado à direita do Poder [de Deus] e vindo sobre as nuvens do céu. Com isso, o seu messiado se transforma em Divindade; e, portanto, Caifás entende escutar uma blasfêmia já que um homem se declara divino. Mesmo que a resposta de Pedro que estudamos seja estritamente histórica, nem por isso deveria ter um significado transcendente, como era o de declarar Jesus unigênito do Pai.

O SEGREDO: Então os cominou para que a ninguém dissessem a seu respeito (Et comminatus est eis ne cui dicerent de illo.)

O SEGREDO MESSIÂNICO: Jesus é tratado desde o início como filho de Deus e filho do Homem - reside uma das perspectivas sob a qual o evangelho de Marcos foi escrito, isto é, sob a noção de Segredo, que W. Wrede chama de Segredo messiânico e Gnilka recomenda chamar de “segredo do filho de Deus” No pequeno prefácio do seu evangelho Marcos escreve: Princípio do evangelho de Jesus Cristo Filho e Deus (Mc 1,1). Como vemos, a ênfase de Marcos é declarar a divindade de Jesus: Filho de Deus, que está em oposição, não em contradição de Filho do Homem como o próprio Jesus chamava a si mesmo. No evangelho de Marcos encontramos um número elevado de textos que denotam este segredo, pois Jesus pede insistentemente que sua origem sobrenatural não seja revelada:
a) Aos demônios: Não permitia que os demônios falassem porque o conheciam (Mc 1, 34), pois clamavam dizendo: Tu és o Filho de Deus (Mc 3, 11).
b) Os doentes: Então ordenou-lhes expressamente que ninguém o soubesse; e mandou que lhe dessem de comer (Mc 5, 43). Então lhes ordenou Jesus que a ninguém o dissessem; mas, quanto mais lho proibia, tanto mais o divulgavam (Mc 7, 36).
Aos discípulos: Além do versículo atual, temos: Enquanto desciam do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto [transfiguração], até que o Filho do homem ressurgisse dentre os mortos (Mc 9, 9).
c) As parábolas ditadas para que vendo, vejam, e não percebam; e ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam e sejam perdoados (Mc 4,10,12). O segredo Messiânico repousa sobre três alicerces: 1) demônios, doentes e discípulos. 2) A incompreensão e incredulidade dos discípulos. 3) O ensinamento de Jesus sempre em parábolas, de modo que não entendessem a dimensão messiânica verdadeira. A explicação é a espera judaica pelo Messias para obter fama e prestígio, bem como evitar revoluções puramente políticas. Apresentar Jesus como Messias triunfante poderia suscitar uma interpretação radical e desencadear um movimento de caráter somente político consequente a intervenção armada de Roma. Por isso esse Cristo discreto se revela unicamente como Filho de Deus a partir da cruz, morte e ressurreição. Uma outra explicação é que dessa forma Jesus é apresentado como o mistério que os judeus não entenderam, ignorando a verdadeira identidade de Jesus, que só pode ser conhecida pelo discípulo que o segue fielmente, pois a vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas (Mc 4, 11). De fato, Jesus se auto proclama Filho do Homem e não Messias e unicamente diz-lhes que revelarão sua identidade após a sua ressurreição dentre os mortos (Mc 9, 9).

PREDIÇÃO: E começou a ensinar-lhes que é preciso [dei=oportet] o Filho do homem muitas coisas padecer e ser repudiado pelos presbíteros [presbuterön=senioribus] e chefes sacerdotais [arxiereön-summis sacerdotibus] e escribas [grammateön-scribis] e ser morto e após três dias ressurgir (Et coepit docere illos quoniam oportet Filium hominis multa pati et reprobari a senioribus et a summis sacerdotibus et scribis et occidi et post tres dies resurgere.)

É PRECISO: O verbo Dei usado impessoalmente significa é necessário, tanto do ponto de vista moral como físico ou biológico. Aqui como em outros casos parece que se deve seguir um desígnio divino, como em Mc 9, 11: Por que os escribas dizem que Elias deve vir primeiro? O Inglês traduz por must.

SER REPUDIADO: Alude a excomunhão dada pelo tribunal supremo ou Grande Sinédrio [de sin=junto e edriaö=sentar-se], porque os juízes são o Establishment da época que constituíam esse tribunal. Era o anátema que podia ser declarado como separação total ou parcial por um grupo de rabinos  [bet din] e que no caso de Jesus era o tribunal supremo unicamente ante o qual a pena de morte além da separação podia ser decretada. Reunia-se no Templo durante o dia, exceto antes dos festivais e do sábado. De acordo com uma antiga tradição tinha setenta e um membros, herdeiros, segundo se supunha, das tarefas desempenhadas pelos setenta anciãos que ajudavam a Moisés na administração da justiça, além do próprio Moisés. Desenvolveu-se, integrando representantes da nobreza sacerdotal e das famílias mais notáveis, possivelmente durante o período persa, quer dizer, a partir do século V-IV aC. É mencionado pela primeira vez, ainda que com o nome de gerousia ( conselho dos anciãos) no tempo do rei Antíoco III da Síria (223 - 187 aC. ). Com o nome de Sinédrio está comprovado desde o tempo do rei Hircano II ( 63 - 40 aC.). Nesses tempos, era presidido pelo monarca asmoneu, que era também sumo sacerdote. Herodes o Grande, no começo de seu reinado, mandou executar grande parte de seus membros - quarenta e cinco, segundo Flávio Josefo (Antiquitates judace 15.6) - porque o conselho atrevera-se a recordar-lhe os limites dentro das quais devia situar-se seu poder. Substituiu-os por personagens submissas a seus desejos. Durante seu reinado e, depois, no tempo de Arquelau, teve limitada importância.  Na época dos governadores romanos, inclusive na de Pôncio Pilatos, o Sinédrio exerceu de novo suas funções judiciais em processos civis e penais, dentro do território da Judeia. Nesse momento, suas relações com a administração romana eram tensas, e o relativo âmbito de autonomia que lhe foi outorgado estava em consonância com a política romana nos territórios conquistados. Não obstante, o mais provável é que nesses momentos, a “potestas gladii”, isto é, a capacidade de ditar uma sentença de morte, estivesse reservado ao governador romano (”prefectus”), que como era habitual, nesses momentos, teria recebido do imperador romano amplos poderes judiciais, entre eles os de morte. O Sinédrio, portanto, embora pudesse julgar as causas que lhes eram próprias, não podiam condenar ninguém a morte. A reunião de seus membros durante a noite para interrogar Jesus foi apenas uma investigação preliminar para definir as acusações que mereciam a pena capital para apresentá-las na manhã seguinte contra Jesus no processo perante o Prefeito romano. O Sinédrio tinha um chefe ou príncipe (Nasi) um sumo sacerdote (Kohen Gadol) e um segundo membro em importância (Av Bein Din).

PRESBÍTEROS: O grego Presbuteros <4245> é um adjetivo que significa velho, ancião e entre os judeus os membros do grande Sinédrio constituindo 1/3 e formado pelos homens ricos e influentes. O seu nome deriva de que em tempos anteriores os chefes do povo eram homens de idade avançada, como eram os setenta homens que julgavam em Israel. (Nm 11, 16 e 18, 25-26). Leigos distintos como com José de Arimateia (Marcos 15:43), dividiam a visão conservadora dos saduceus e davam a assembleia a diversidade de um parlamento moderno.

CHEFES SACERDOTAIS: Archiereis<749>na realidade deveríamos traduzir por príncipes ou principais dos sacerdotes. Dentre estes, um presidente que era conhecido como “o sumo sacerdote”. Normalmente os saduceus eram os principais sacerdotes, que eram os homens mais poderosos do Sinédrio. Além do sumo sacerdote estava o shagan e outros como o capitão do templo e o que supervisionava os procedimentos e comandava o guarda do templo (Atos 5:24-26). Os outros serviam de tesoureiros, controlando os salários dos sacerdotes e trabalhadores e monitorando a vasta quantia de dinheiro que vinha através do templo.

ESCRIBAS: Grammateis = letrados. Os membros mais recentes do Sinédrio eram os escribas. A maioria deles eram fariseus. Eles eram advogados profissionais, treinados em teologia, direito e filosofia. Eles eram organizados em grêmios e normalmente seguiam rabinos ou professores célebres. Gamaliel, um escriba famoso do Sinédrio, que aparece no Novo Testamento (Atos 5:34), foi o erudito que instruiu o apóstolo Paulo (Atos 22:3). Oficialmente, o Sinédrio só tinha jurisdição na Judeia. Mas na prática ele tinha influência na província da Galileia e até mesmo em Damasco (Atos 22:5). O trabalho do conselho era basicamente julgar assuntos da lei judaica quando surgiam discórdias. Eles julgavam acusações de blasfêmia como nos casos de Jesus (Mateus 26:65) e Estêvão (Atos 6:12-14) e também participavam na justiça criminal. Oficialmente, o Sinédrio só tinha jurisdição na Judeia. Mas, na prática, ele tinha influência na tetrarquia  da Galileia e até mesmo em Damasco (Atos 22:5). O trabalho do conselho era basicamente julgar assuntos da lei judaica quando surgiam discórdias. Em todos os casos, sua decisão era final. Eles julgavam acusações de blasfêmia como nos casos de Jesus (Mateus 26:65) e Estevão (Atos 6:12-14) e também participavam na justiça criminal. O filósofo judeu Filo, indica que no período romano o Sinédrio podia julgar violações ao templo. Isso explica as mortes de Estêvão (Atos 7:58-60) e Tiago. Gentios que eram pegos ultrapassando o recinto do templo eram avisados sobre uma pena de morte automática. Porém, o Novo Testamento e o Talmude discordam de Filo nesse ponto de vista. No julgamento de Jesus, as autoridades estavam convencidas em envolver o governador romano Pilatos, que por si só poderia mandar matar Jesus (João 18:31). De acordo com o Talmude, o Sinédrio perdeu o privilégio de executar punição capital “quarenta anos antes da destruição do templo” ou por volta da época da morte de Jesus.

SER MORTO: Logicamente, a mote era uma consequência da condenação dada pelo supremo tribunal.

RESSURGIR: Os três dias significam morte total, mas não corrupção.

CENSURA DE PEDRO: E com clareza falava a palavra. Então Pedro, tendo-o levado consigo, começou a censurá-lo (Et palam verbum loquebatur et adprehendens eum Petrus coepit increpare eum.)

FALAVA A PALAVRA: É um hebraísmo, para dizer que explicava-se com grande clareza. Logicamente, essas suas palavras eram um choque profundo para discípulos que esperavam em Jerusalém o triunfo do mestre, agora declarado Messias abertamente.
INTERVENÇÃO DE PEDRO: (só em Mt e Mc): Ele foi o porta-voz-chefe que resumia o pensar do colégio apostólico, ou foi iniciativa pessoal do discípulo? Tal e qual lemos nos dois evangelistas citados, mais parece ser um impulso pessoal: Pedro entendia que suas aspirações a um posto relevante num Reino futuro e brilhante de Jesus, como Messias nacional, vitorioso,  caiam por terra como arranjo de fichas de dominó. E foi por isso que  tomou Jesus à parte. Pedro acredita que Jesus está tomado de um espírito estranho e por isso o comina [Epitimeö] exatamente como fazia Jesus com os maus espíritos. Daí a palavra Ileos Soi em Mateus, que podemos traduzir literalmente por propício (seja Jahvé) para ti, e que em termos mais inteligíveis seria: Deus não pode permitir isso de ti (Ver Cro 11,19); não acontecerá isso de modo algum. Pedro que estava pouco antes dirigido pelo espírito do Pai, acredita que agora ele está conduzido pelo mesmo espírito e por isso a afirmação é tão categórica.

JESUS RECRIMINA PEDRO: Ele (Jesus), pois, tendo-se voltado e, vistos seus discípulos, cominou Pedro dizendo: Retira-te detrás de mim, Satanás, já que não entendes as coisas de(o) Deus mas as dos homens (Qui conversus et videns discipulos suos comminatus est Petro dicens vade retro me Satana quoniam non sapis quae Dei sunt sed quae sunt hominum)

RESPOSTA DE JESUS: Jesus se dirige a todos os discípulos aos quais o evangelista diz em termos semíticos com: voltado e olhando para seus discípulos. Jesus repreendeu Pedro: Põe-te atrás de mim, ó Satanás! (Mt e Mc). O que em termos práticos indica: agora falas não em nome de Deus, mas de seu inimigo (=Satanás) cuja voz representas, e como agora te transformaste em pedra de escândalo (jogo com o nome de Petra) (Mt 16, 23), retira-te atrás, para eu não tropeçar nela e cair se estiver diante de mim. Porque não possuis a sabedoria do (verdadeiro) Deus, mas a dos homens e como tal falas. Assim traduzido, suavizamos a crueza da expressão e vemos mais claramente a realidade da verdade de Jesus e sua intenção.

LIÇÃO MESTRA DE JESUS: Então, tendo convocado a multidão [oxlon=turba] junto com os seus discípulos, disse-lhes: quem quiser vir após mim [opisö=post], negue-se [aparnesasthö=deneget] a si mesmo e tome [aratö=tollat] a sua cruz e siga-me (Et convocata turba cum discipulis suis dixit eis si quis vult post me sequi deneget se ipsum et tollat crucem suam et sequatur me)

A MULTIDÃO: Ochlos: multidão, povo, massa, povo, turma. Em geral um grupo mais ou menos grande de pessoas reunidas para escutar a Palavra. Um exemplo: Mc 3, 32: E a multidão estava assentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos te procuram, e estão lá fora. A palavra indica que o ensino subsequente talvez é tomado de outra situação diferente da atual, mas que o evangelista aproveita porque a ocasião é propícia. Pensamos que o ensino foi dado em diversas ocasiões e que nesta circunstância os ouvintes eram mais propriamente seus discípulos. De fato o versículo 35 tem sua duplicata em outras circunstâncias bem diferentes, como em Lc 9, 23.

APÓS MIM: Opiso atrás detrás, após. O significado próprio é o de ir atado, portando o patibulum ou madeiro transversal ao qual ia atado o réu, formando uma récua ou séquito se dirigindo ao lugar de execução, em cuja cabeça estava o líder principal e ao qual seguiam os demais condenados.

NEGUE-SE: Aparneomai negar, denegar, desmentir, renegar, recusar, dar uma repulsa, negar-se. Renunciar. Pelo contexto, devemos optar por perder os próprios interesses abandonando os mesmos, ou seja, uma renúncia a sua vontade de ordenar sua vida segundo os próprios interesses.  O verbo é usado para profetizar que Pedro negaria Jesus três vezes (Mc 14, 30). É usado por Mateus em lugar paralelo com a tradução de renunciar a si mesmo (Mt 16, 24).  Essa  renúncia é para seguir os passos de Cristo e estar disposto a carregar a cruz como um maldito de Deus e um réu dos homens, sendo inocente. Nem todos ver-se-ão em circunstâncias tão extremas,mas todos devem sentir os mesmos desejos entregando sua vontade aos desígnios de Deus como fez Jesus.

TOME A CRUZ: Airö é o verbo grego, que significa levantar,alçar, erguer. Uma segunda acepção é acolher, admitir, abraçar, carregar. É neste sentido que o texto é traduzido por tomar sobre si (Mt 10, 38), ou tomar (Mc 8, 34eLc 9, 23) que em Lc 14,27 se traduz por carregar [bastazo grego], que no latim é portare, levar ou carregar a cruz. Isto para nós é pura teoria imaginativa, mas na época era um escândalo, o escândalo da cruz, que Paulo teve que esclarecer na sua epístola aos gálatas (Gl 5:11) que explica em 1 Cor 1, 23 como sendo o obstáculo principal para a entrada no cristianismo entre os gregos. Com esta nova lição, todo discípulo tem também uma cruz a carregar como o mestre. Cruz que era humilhação primeiro (negação de si mesmo) e sofrimento depois. É uma cruz de cada dia (Lc). O destino do discípulo não é outro que o experimentado pelo mestre, e neste caso, Jesus se torna mestre de extrema claridade para seus discípulos.

CONSEQUÊNCIA FINAL: Pois quem quiser salvar sua vida [psuchën=animam] a perderá, porém quem perder sua vida por minha causa e do evangelho a salvará (Qui enim voluerit animam suam salvam facere perdet eam qui autem perdiderit animam suam propter me et evangelium salvam eam faciet) Ainda mais; ele manifesta a razão porque  devem fazer isso os seus seguidores: Para ganhar a vida definitiva é preciso perder a vida efêmera de hoje. O Psichë grego pode ser traduzido por vida ou princípio vital de uma pessoa. Não a vida em si como movimento, mas o que ela tem de futuro e promessa, de ambição: perder a vida é deixar a ambição própria para aceitar como futuro o Reino, onde a vontade divina substitui a vontade humana, aceitando a cruz como termo intermediário de redenção. É precisamente essa cruz que hoje facilmente aceitamos como símbolo de Cristo, mas rejeitamos como realidade em nós.



06.09.2009
23º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Verde

__ “Fez ouvir os surdos e falar os mudos.” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! Neste primeiro domingo do mês da Bíblia, a Liturgia nos ensina que o nosso Deus é Deus de todos, mas tem atenção especial para com aqueles que mais sofrem. Ele está ao lado dos doentes e marginalizados. Ele é força para os que têm defeitos físicos e por isso mesmo se sentem menos dignos. Parece que nos momentos tristes ele está longe, mas é aí que ele se coloca mais perto. Na primeira leitura, o profeta Isaías consola os corações perturbados, garantindo que Deus virá para fazer justiça, virá para castigar e premiar. Quando o Messias chegar, diz o profeta, os coxos vão andar, os cegos vão ver, os mudos falar e os surdos ouvir. No Evangelho, Jesus prova que o Reino de Deus já chegou. O surdo-mudo é curado, confirmando as palavras de Isaías. Rezemos para que tenhamos ouvidos para ouvir a Palavra de Deus e língua para anunciá-la por todos os cantos.

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

SALMO RESPONSORIAL Sl 146(145): - "Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Bendirei ao Senhor por toda a vida!"

SEGUNDA LEITURA (Tg 2, 1-5): - "São Tiago ensina que aos olhos de Deus as pessoas valem por aquilo que são e não pelas riquezas que possuem."

EVANGELHO (Mc 7,31-37): - "Jesus cura o surdo-mudo, que começa a proclamar as maravilhas de Deus. O Reino de Deus, anunciado no passado, chegou. Um novo tempo começa a existir. "



Comentário Exegético - XXIII Domingo do Tempo Comum (Ano B)

Segunda Leitura

EPÍSTOLA DE TIAGO 2, 1-5
( Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Tiago fala de um fato que devia ser comum entre os primitivos cristãos: a diferente maneira de tratar ricos e pobres, dentro das comunidades [sinagogas] que se reuniam para a oração em comum e a fração do pão. E o apóstolo tira a conclusão de que devem ser precisamente os pobres os que devem atrair a nossa atenção por duas razões: A primeira, porque não devemos julgar pelas aparências e assim nos colocarmos no lugar de Deus, o único e verdadeiro juiz. E logo, porque são os pobres, os preferidos de Deus, no anúncio e na difusão do evangelho. Seria ir contra os desígnios divinos preferir o rico e desprezar o pobre. Estes últimos são os primeiros no Reino e devem ser os primeiros em nossa estima.

FÉ SEM DISTINÇÕES: Irmãos meus! Não em distinção de pessoas [prosöpolëthiais=personarum aceptione] tenhais a fé do nosso Senhor Jesus Cristo da glória. Fratres mei nolite in personarum acceptione habere fidem Domini nostri Iesu Christi gloriae.

PARCIALIDADE: A palavra Prosopolepsia, tomar em conta a pessoa, indica um favoritismo devido as circunstâncias que acompanham uma pessoa. A palavra é usada também em Rm 2, 11;Ef 6. 9 3 Cl 4, 25 para indicar a imparcialidade divina em seus julgamentos.

DA GLÓRIA: A tradução literal é um pouco difícil. Os modernos traduzem a frase com um adjetivo: glorioso, de modo que é a fé em nosso Senhor Jesus Cristo Glorioso. A expressão do Senhor da glória é encontrada em  1Cor 2, 8, falando da Sabedoria de Deus. A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória. Nos Salmos temos a frase Rei da glória [Melek haKabod] referida a Jahveh (Sal 24, 8), como sendo o Senhor forte e poderoso. Talvez tenhamos que trocar um pouco a ordem das palavras e falar de Jesus Cristo, Senhor da glória. Se nos Salmos, o Senhor da glória é o Deus forte e poderoso, o Deus dos exércitos (Sl 24, 10). no NT o Senhor da glória é o crucificado, o desprezado por príncipes e poderosos. E nossa fé está fundamentada precisamente nessa humilde figura, a da cruz como loucura para os que perecem (1Cor 1, 18), pois Cristo teve que se humilhar até a morte de cruz (Fl 2, 8) de modo que,  desprezando a afronta, suportou a cruz (Hb 12, 2). Por tudo isso, podemos afirmar que a glória de Jesus esteve na sua afronta e humilhação e consequentemente, não podemos ver a glória humana como verdadeira, mas como ouropel que em vão quer imitar o ouro verdadeiro. Daí a avaliação correta que Tiago usa entre o rico e o pobre.

A DISRIMINAÇÃO: Se, pois, entrar em vossa sinagoga um homem com um anel de ouro [chrysodaktylios=aureum anulum] em vestido [estheti=veste] esplêndido [lampra=candida] e entrar, porém, um mendigo [ptöchos=pauper] mal vestido e olhardes [epiblpsete=intendatis] ao que leva o vestido esplêndido e lhe disserdes: tu sentas aqui confortavelmente [kalös=bene] e ao mendigo disserdes tu ficas de pé ali ou senta-te aqui, embaixo do meu tamborete [upopodiov=scabillo]. Etenim si introierit in conventu vestro vir aureum anulum habens in veste candida introierit autem et pauper in sordido habitu et intendatis in eum qui indutus est veste praeclara et dixeritis tu sede hic bene pauperi autem dicatis tu sta illic aut sede sub scabillo pedum meorum.

SINAGOGA: em termos judaicos era a casa onde se reuniam os judeus para o culto sabático em especial, ou seja, para rezar e estudar as Escrituras. O nome provém do grego e significa reunião ou assembleia. Em hebraico era beit Knesset [casa da assembléia] ou beit tefila [casa da oração]. Logicamente, em termos primitivos cristãos, era o lugar onde se reuniam para celebrar a ceia do Senhor como diz Paulo em 1 Cor 11, 20.

ANEL DE OURO: Sabemos que uma das características da filiação, bem natural, bem adotiva, era o anel, como vemos em Gn 41, 42 ao tirar o faraó o anel de sua mão e pô-lo na de José, ou na parábola do filho pródigo (Lc 15, 22). O anel era como a rubrica com que se assinam os documentos e servia de selo para autenticar os mesmos. Anel de ouro era o mais apreciado metal e junto com o vestido esplêndido, talvez de bisso ou linho fino, denotava a riqueza do possuidor (Lc 16, 19). Era um rico em todo o esplendor humano de sua classe.

MENDIGO: O ptochós em termos não bíblicos é a pessoa que deve pedir esmola para poder viver, ou seja, um mendigo ou beggar em inglês. Já em termos bíblicos do NT parece ser a tradução preferida do ‘aniy o necessitado, o humilde, ou melhor dal como oposto ao rico ‘ashiyr como vemos em Rt 3,10. Em Sf 3, 12 encontramos as duas palavras ['aniy e dal] que a Setenta traduz por praus [manso] e tapeinos [humilde ou pequeno]. No NT a viúva que depositou dois leptons [dois centavos diríamos hoje] [é chamada de ptochos, mas Lucas a designa como penichros [necessitada]. Lucas iguala o ptochos com os mendigos que na época estavam à beira dos caminhos como tolhidos, coxos, cegos (Lc 14, 13). Por tudo o dito, parece ser que Tiago descreve um verdadeiro mendigo. Assim o confirma a sua roupa que é descrita como suja [rupara=sordidus].

O DIFERENTE TRATO: o rico, esplendidamente vestido, é tratado com deferência e por isso, tem seu assento assegurado e confortável [kalös] e o mais importante é que está perto de quem dirige a assembleia: aqui [öde]. Porém, o pobre é tratado até com desprezo: oferecem-lhe duas opções, cada uma mais humilhante: de pé, ali [um lugar afastado], ou embaixo de meu supedâneo [upopodion]. Este era um banquinho em que se apoiavam os pés quando a pessoa estava sentada. A figura relembra o que acontecia com os vencidos numa batalha: deitados no chão, o vencedor passava sobre seus corpos como se fossem um tapete; ou punha o pé sobre a cabeça do vencido, assim deitado de bruços, para indicar superioridade. Na celebração do culto, existia esse pequeno apoio dos pés quando se assentava durante as cerimônias correspondentes. O trato dado ao pobre era humilhante para ele e de extrema arrogância para o dirigente da assembleia.

TORNADOS JUÍZES: Não discriminastes [diekrithete=iudicatis] dentro de vós mesmos e vos tornastes juízes [kritai=iudices] de elucubrações malvadas? Nonne iudicatis apud vosmet ipsos et facti estis iudices cogitationum iniquarum. Agora o apóstolo usa duas razões para condenar essa conduta discriminatória: A primeira é que os que assim procedem julgam de modo errado as pessoas e, portanto, se deixam levar por pensamentos [dialogismoi=cogitationes] perversos. Julgar um homem pelo vestido é se deixar levar de aparências, muitas vezes enganosas. Do AT podemos ler como não há no Senhor nosso Deus iniquidade nem acepção de pessoas, nem aceitação de suborno (2 Cr 19,7). Ideia que Pedro reafirma em At 10, 34: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas. Finalmente é o próprio Tiago que afirmará: se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redarguidos pela lei como transgressores. A ideia da maldade é que o tal que julga dessa forma se torna juiz, fato contrário à Lei e, portanto, sendo uma transgressão da mesma. Desse jeito, o pensamento do qual surge o juízo iníquo é chamado de malvado. Segundo a mentalidade dos judeus, o verdadeiro juiz era o Senhor: Porque o Senhor é o nosso Juiz; o Senhor é o nosso Legislador; o Senhor é o nosso Rei, Ele nos salvará (Is 33, 32). E os juízes humanos eram verdadeiros representantes desse juiz supremo escolhidos entre os anciãos do povo, como lemos em Dt 16, 16: Juízes e oficiais porás em todas as tuas cidades que o Senhor teu Deus te der entre as tuas tribos, para que julguem o povo com juízo de justiça. Fundado nesta escolha divina, Jesus responde a quem busca justiça contra seu irmão por causa da herança: Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós? (Lc 12, 14). Tornar-se juiz, independente da Lei que os promovia, era ir contrário a essa Lei. E o juízo já era formado no pensamento interior, que se exteriorizava na conduta de discriminação de pessoas. É bom recordar a norma do Mestre: Não julgueis, e não sereis julgados (Lc 6, 37). E caso tenhamos a obrigação de julgar, não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça (Jo 7, 24). Para um judeu da época o maior castigo divino era a pobreza, muito mais do que a doença. E ser rico era ter recebido de Jahveh a maior das bênçãos terrestres. Era assim que julgavam os homens, além do natural sentimento que a riqueza e a pobreza suscitam no homem comum.

EXEMPLO DIVINO; Ouvi, meus irmãos queridos: Não escolheu [exelaxeto=elegit] (o) Deus os mendigos deste mundo, ricos em fé e herdeiros do Reino que Ele prometeu aos que o amam. Audite fratres mei dilectissimi nonne Deus elegit pauperes in hoc mundo divites in fide et heredes regni quod repromisit Deus diligentibus se. O segundo motivo pelo qual o pobre não pode ser desprezado, mas antes estimado e tratado com carinho, é que devemos imitar a conduta divina, que os escolheu como seus herdeiros do Reino. De fato, temos o testemunho de Paulo entre os de Corinto: Vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados (1 Cor 1, 26). E sabemos pela palavra de Jesus: Eu vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus (Mt 19, 24).

Evangelho (Mc 7,31-37)

CURA DO SURDO-MUDO

INTRODUÇÃO: Historicamente, é um dos muitos relatos que Marcos narra com detalhes,  para provar sua intenção de escrever o Evangelho [boa nova] de Jesus Cristo, como Filho de Deus (Mc 1,1). Um surdo mudo era o pior endemoninhado da época e sua cura considerada impossível do ponto de vista humano (Mt 9, 34). Daí a importância do milagre. Mas existe uma outra razão para que o relato seja importante: a sua semelhança com os ritos batismais, nos quais a saliva e a palavra effetah eram usadas como abertura dos ouvidos e da língua dos novos batizados. Vamos, pois, aos detalhes.

A VOLTA: Então, de novo, saindo dos termos [oriön=finibus] de Tiro e Sidônia veio perto do mar da Galileia no meio dos limites da Decápolis. Et iterum exiens de finibus Tyri venit per Sidonem ad mare Galilaeae inter medios fines Decapoleos.

OS LIMITES: A palavra Orion significa vizinhança, limites, fronteira, divisa. Como exemplo: Herodes mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos (Mt 2, 16). Para indicar uma região: Deixando mapa1Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zebulom e Naftali (Mt 4, 13). Quando terminou estas palavras saiu da Galileia e veio à região da Judeia. Como vemos, o termo grego significa mais região do que limite ou divisa. Tiro e Sidônia podiam ser considerados como região única, devido ao fato de formar parte de uma civilização com língua e culto próprios. De fato, Mt 11, 21-22, e Lc 6, 17 indicam que Tiro e Sidônia representavam uma região, como Galileia ou Judeia. (Ver mapa 1)

TIRO, era em tempos de Jesus uma cidade importante.   Na Bíblia sai desde Js 19, 29 como fortaleza importante, cercada por Nabucodonossor durante 13 anos sem sucesso, que só Alexandre Magno conseguiu render, matando 8 mil, escravizando 20 mil e crucificando 2 mil cativos. Jesus muito provavelmente não entrou nela, mas percorreu algumas aldeias próximas. Era famosa pela produção de uma tinta chamado púrpura tíria. A sua cor obtida da concha de um molusco era em muitas culturas da antiguidade, reservada para uso exclusivo da realeza ou dos grande ricos (Lc 16, 19). Seu nome significa rocha. Hoje a cidade tem 170 mil habitantes

SIDÔNIA: Mais ao norte, hoje tem 200 mil habitantes. Dependendo da tradução, termos ou região por uma parte e limites ou fronteira, como segunda opção. Assim, o texto pode ser interpretado como saindo da região pagã em que a influência das duas cidades era evidente, ou como passando pelas cidades de Tiro e Sidônia como parece indicar o texto da Vulgata. Neste caso, teríamos uma incongruência como subir ao norte para descer num caminho tortuoso e inacreditável para o sul. Neste caso, diríamos que Marcos desconhecia a geografia da Palestina.

DECÁPOLIS: A palavra indica dez cidades. como vemos no mapa número dois. A maioria era cidades independentes, situadas na Transjordânia, ou do lado leste do Jordão. A única que estava ao oeste do Jordão ou Cisjordânia e que recebia o nome de terra de Canaã, era Citópolis. Na Bíblia vemos mencionadas Gadara e Gerasa. Se consideramos Damasco como uma das cidades da Decápolis, embora só metaforicamente, porque era cidade do rei Aretas, árabe, vemos como a Galileia do norte estava confinando com o território  das cidades da Decápolis, e o mar da Galileia.

mapa2O DOENTE: Então levam-lhe um mudo [köphon=surdum], e com dificuldade na fala [mogilalon=mutum] e lhe suplicam para pôr a mão sobre ele [epithe=imponat]. Et adducunt ei surdum et mutum et deprecantur eum ut inponat illi manum Um surdo [kophos] de nascença que não é mudo, mas que pode emitir  sons que ninguém entende e neste sentido podemos falar de surdo mudo [modernamente] ou com mais propriedade como Marcos, que tinha dificuldade em falar corretamente [mogilalos].   O caso é similar ao que conta Marcos em 8, 22-26 do cego com respeito à conduta de Jesus em termos de se servir de ações proibidas por lei e por isso separar da multidão os que iam ser curados. Jesus não podia se expor à crítica feroz de seus adversários. E por outra parte, devia cumprir o dito pelo profeta Isaías 35, 5-6: os olhos dos cegos enxergarão e os ouvidos dos surdos se abrirão. Então o coxo saltará como um cervo e a boca do mudo [mogilalos na Setenta] gritará de alegria.

SURDO E GAGO: Assim é traduzida a frase na maioria das bíblias modernas. Somente numa outra passagem no AT saem juntas as mesmas palavras do evangelho de hoje: surdo [kophos] e gago [mogilalos]. É no trecho anterior Is 35, 5-6 onde Isaías fala com as mesmas palavras do homem curado nesta passagem, que era surdo e gago, ou que tinha dificuldade em se expressar. Daí que muitos intérpretes optem por um significado simbólico desta passagem, além do natural histórico  da mesma. Quem seria o surdo e gago que, unicamente sob a intervenção direta de Jesus, poderia  ter  cura? A  maioria, pois, dos  autores  se inclina em apontar os discípulos de Jesus, que pouco antes, são descritos como nada tendo compreendido a respeito dos pães multiplicados; pois o coração deles estava endurecido (Mc 6,52). Era a mesma incompreensão que Jesus encontrava entre o povo, e por isso falava em parábolas, para que por muito que ouvissem não compreendessem (Mc 4,12). No AT a surdez junto com a cegueira eram símbolos da resistência de Israel em escutar o que Jahvé falava pelos profetas. Assim Is 6,10: “A mente deste povo torna pesados (duros) seus ouvidos e tapa seus olhos de modo que não veja com seus olhos e não ouça com seus ouvidos“. O sentido, pois, simbólico da passagem é que só Jesus pode dar a entender os planos de Deus e dar aos discípulos uma liberdade de linguagem para transmitir os mesmos com toda exatidão e verdade. Porque dos inúmeros casos de cura que Jesus efetuou nessa margem leste e pagã do Jordão e do lago de Tiberíades, (ver  Mt 15, 29-31) somente este é narrado por Marcos com todo luxo de detalhes.

EVITANDO ESCÂNDALOS: E tendo-o retirado da multidão à parte [kata idian<seorsum>], pôs seus dedos dentro dos ouvidos dele e tendo cuspido [ptusas], tocou sua língua. Et adprehendens eum de turba seorsum misit digitos suos in auriculas et expuens tetigit linguam eius.

MAGIA OU CURA? A cura de doentes através da imposição das mãos, era admitida pelos rabinos da época; porém não se podia usar ritos ou gestos fora da simples imposição das mãos e não era permitido usar outras palavras a não ser as da Escritura, para evitar qualquer superstição ou magia, proibidas pela lei (Lv 3,2). Os judeus atribuíam uma especial força à imposição das mãos que era obrigatória sobre as vítimas do sacrifício (Lv 1,4) e também ao modo da absolvição dos pecados. Isto nos mostra como a imposição das mãos que a Igreja Católica usa para o ato penitencial é uma prática que tem sua origem, como tantas outras, na tradição judaica. Os judeus pensavam que os pecados pessoais ou dos parentes eram causa de determinadas doenças. Por isso pedem a Jesus que impusesse as mãos sobre o surdo-gago.

À PARTE: [Kata idian=seorsum] Jesus exigia fé. Como pedir a fé de um homem que nada entendia? Por isso usa gestos que aparentemente poderiam ser tomados como passes mágicos e foi sem dúvida essa a razão que o levou a afastá-lo da multidão. Introduzindo os dedos nos ouvidos, demonstra ao surdo que quer curar sua surdez. A saliva era considerada como uma condensação do espírito. Por isso usa a saliva, que, por outra parte, na antiguidade era, junto com o vinho e o azeite, remédio usual, para declarar que ele quer abrir definitivamente a língua do doente. Sem dúvida que este assim o entendeu. Uma outra interpretação é que, sendo talvez o doente pagão ou um judeu que morava em ambientes pagãos, estava acostumado aos passes dos curandeiros locais.

ORAÇÃO DE JESUS: E tendo elevado os olhos ao céu, suspirou [estenaxen=ingemuit] e diz-lhe: effata [eppheta], o qual é abre-te. Et suspiciens in caelum ingemuit et ait illi eppheta quod est adaperire.

ELEVANDO OS OLHOS: Os judeus olhavam para o chão quando oravam. Era a oração como se um escravo se apresentasse diante do Senhor. Jesus, pelo contrário, dirigia-se ao Pai e por isso podia elevar seus olhos na oração. Jesus olha para o céu, lugar onde estava o Deus dos antigos e onde se supunha estava o terceiro céu que era a habitação da divindade, e lança um suspiro: quer com isto indicar que Ele invoca o poder divino à sua disposição para a cura. Tudo está feito para que a fé no poder de Jesus surta seu efeito e para que o poder que cura o doente seja um poder do alto e não um ato de magia. Pois a fé que o mestre requer não é a fé na cura, mas no poder dele de curar. Então pronuncia a palavra Effetah = Abri-os totalmente. Entendeu o surdo a voz? Ou talvez  a ouviram alguns dos discípulos, escolhidos como os três em Marcos 5,37? O caso é que o doente ficou curado de imediato

SIMBOLISMO: A Igreja usa os fatos que acompanharam a cura para realçar o simbolismo do sacramento do Batismo, que envolve uma realidade invisível. Como no caso de hoje, o batizando é um verdadeiro pagão e o sacerdote, uma vez batizado, entregará a vela acesa, como luz de Cristo que iluminará seus passos e em seguida tocará ouvidos e boca pronunciando a palavra Éfeta, dizendo: “O Senhor que fez os surdos ouvir e os mudos falar, te conceda que possas logo ouvir a sua palavra e professar a fé para louvor e glória de Deus”. Fora de todo simbolismo, esta é a realidade, afirmada por  Paulo como necessária em todo homem de fé, em Rm 10,10: “Crer no próprio coração conduz á justiça e confessar com a boca conduz à salvação”.

PISTAS:
1o) Necessidade de uma cura interior. Não estamos dispostos a escutar a radicalidade do evangelho (a porta é estreita), nem temos a suficiente ousadia para anunciá-lo num mundo indiferente, cético e até hostil.

2o) Existe uma disposição humana, que precede e acompanha a ação do Espírito Santo: é a vontade de buscar a verdade e praticar a justiça (no sentido de optar sempre pelo que é bom) de modo a se deixar tocar docilmente pela graça, retirando impedimentos para que o Espírito abra ouvidos e desate línguas em favor da Palavra, ou seja, Jesus.

3o) A mediação de Jesus e sua necessidade: É Ele quem atua; mas sempre em comunhão com o Espírito, enviado por Ele, assim como foi Ele enviado pelo Pai; daí o olhar ao céu (Pai) e o suspiro (Espírito) acompanhando o gesto de suas mãos (corpo) e a saliva de sua boca (seu espírito).

4o) Levou-o à parte; isto é: sem sair do modo de ser e possuir, circunstâncias que acompanham nosso ego, o formam e o deformam, não poderemos encontrar o verdadeiro sentido do Cristo da cruz (anunciado por Paulo), o que salva  [não unicamente cura o corpo] nossas vidas do  anonimato da rotina e da mediocridade da vida cômoda.



CAMPANHA DA VELA VIRTUAL DO SANTUÁRIO DE APARECIDA

CLIQUE AQUI, acenda uma vela virtual, faça seu pedido e agradecimento a Nossa Senhora Aparecida pela sagrada intercessão em nossas vidas!


QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje!    Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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