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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com

. Evangelho de 22/12/2013 - 4º Domingo do Advento
. Evangelho de 15/12/2013 - 3º Domingo do Advento


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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22.12.2013
4º DOMINGO DO ADVENTO — ANO A
( ROXO, CREIO, PREFÁCIO DO ADVENTO II – IV SEMANA DO SALTÉRIO )
__ "Eis o sinal: uma Virgem conceberá e dará à luz um menino." __

(Acender a última das quatro velas da coroa do Advento)

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

NOTA ESPECIAL: VEJA NO FINAL DA LITURGIA OS COMENTÁRIOS DO EVANGELHO COM SUGESTÕES PARA A HOMILIA DESTE DOMINGO. VEJA TAMBÉM NAS PÁGINAS "HOMILIAS E SERMÕES" E "ROTEIRO HOMILÉTICO" OUTRAS SUGESTÕES DE HOMILIAS E COMENTÁRIO EXEGÉTICO COM ESTUDOS COMPLETOS DA LITURGIA DESTE DOMINGO.

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Chegamos ao quarto e último domingo do Advento. Assim como a comunicação humana é eminentemente feita por sinais, assim Deus se utiliza de sinais para comunicar seu projeto salvador. O exemplo de José e Maria ajuda a compreender que o projeto divino em nossas vidas não acontece de forma mágica e nem por imposição, mas pelo diálogo com Deus, buscando compreender qual a missão que o Senhor deseja de cada pessoa.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: No quarto e último Domingo do Advento, chegamos às portas do Natal. As novenas estão aquecendo nossa fé e aproximando muitas pessoas nas comunidades e grupos de rua. Nossa espiritualidade se fortaleceu por meio da vigilância e da oração. O amor divino renovou o nosso ser filial e nos deu uma viva consciência de que somos filhos amados de Deus Pai. Por isso, o Natal será celebrado com espírito cristão e não vivido simplesmente como oportunidade de consumo. Aproveitemos os dias que antecedem para mergulhar em profundidade no Mistério da Redenção, dando especial relevo à Virgem Maria, como faz a liturgia nesta semana.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Através da pregação e da liturgia a Igreja continua a repetir ao homem que a verdadeira e definitiva salvação é um dom que o próprio Deus nos traz, vindo a nós. O ponto central da liturgia deste domingo é a revelação desse segredo, desse mistério escondido durante séculos: a manifestação do plano salvífico que Deus preparou e realizou por amor aos homens. Esse desígnio de salvação tem uma história e seus sinais reveladores.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo entoemos alegres cânticos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Is 7,10-14): - "O próprio Senhor vos dará um sinal. Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel."

SALMO RESPONSORIAL 23(24): - "Abre as portas, deixa entrar o rei da glória. É o tempo, ele vem orientar a nossa história!"

SEGUNDA LEITURA (Rm1,1-7): - "Jesus Cristo, nosso Senhor. É por Ele que recebemos a graça da vocação para o apostolado"

EVANGELHO (Mt 1,18-24): - "Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados."



Homilia do Diácono José da Cruz — 4º Domingo do Advento — ANO A

"UMA VIRGEM CONCEBERÁ..."

Uma das grandes alegrias na minha adolescência, foi a de ter participado na construção da Igreja São João Batista. Por aqueles tempos eu me juntava com alguns congregados marianos, entre eles meu pai, e íamos aos domingos ou feriados, trabalhar em um mutirão na construção da Igreja de São João Batista em Votorantim, para tirarmos terra do sub solo, onde hoje é  presbitério, em um trabalho de formiguinha, que exigia esforço e paciência de todos os voluntários. Evidentemente, quando olhávamos para toda aquela estrutura de ferragens e vigas de concreto, madeiramento, tijolos e pedras espalhados por todo canto, não conseguíamos vislumbrar a beleza da obra acabada, mesmo assim, no final da jornada de trabalho, não deixávamos de comemorar com um bom gole de vinho que o Sr. Olério providenciava, porém, recordo-me que em 08 de dezembro de 1972, quando ela foi oficialmente inaugurada à noite, eu senti muito orgulho e alegria ao pensar que, mesmo na fragilidade dos meus quinze anos, havia participado do projeto.

O reino de Deus vem sendo edificado no meio dos homens desde os primórdios da humanidade, parece que no Antigo Testamento, que foi o tempo das promessas, Deus sinalizou o que estava por vir, o templo da plenitude com a encarnação do seu Filho Jesus, no qual o projeto chegaria ao ápice: Deus no meio dos homens, falando e caminhando com eles. Poderíamos ainda dizer, que em todo o Antigo Testamento, através dos patriarcas e profetas, Deus foi explicando os pormenores do seu projeto, usando para isso uma linguagem humana, fácil para nossa compreensão, dando uma visibilidade do seu reino nos reinados humanos, para que assim, na fé e na esperança, sendo fiéis à aliança estabelecida, os homens colaborassem e o ajudassem a preparar o coração de toda humanidade para acolher o novo reino que estava por vir.

A primeira leitura desse quarto domingo apresenta-nos a figura do Rei Acaz, um homem aparentemente religioso, com um discurso muito bonito “Não pedirei e nem tentarei o Senhor”, mas com uma prática desastrosa, porque não deu ouvidos ao profeta e preferiu confiar na força e no poder dos Assírios, para vencer seus inimigos, o que não acabou acontecendo. Parece que Acaz não era muito chegado em sinais divinos, que só são perceptíveis à luz da fé.  Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Emanuel – Em tempos em que, ser virgem era uma desonra, pois uma das promessas de Deus ao patriarca havia sido a descendência numerosa, uma concepção era sem dúvida um sinal prodigioso, mas o rei Acaz não acreditou que Deus pudesse agir e reverter à dramática situação em que se encontrava o seu reino. Esse rei Acaz é o homem da pós modernidade, que neste terceiro milênio, aposta todas as suas fichas na tecnologia, na ciência que lhe possibilita o poder político e econômico, é como se dissesse “Não precisamos de Deus”, ou então “Olha Deus, fica aí no seu cantinho e vê se não atrapalha o avanço da humanidade”.

Mas no evangelho encontramos José, homem justo diante de Deus, alguém que não se move a partir da lógica humana, mas sim pela fé, alguém que é capaz de desfazer seus planos para aceitar em sua vida a vontade de Deus, tornando-se disponível para colaborar com o reino. O Deus que tudo PODE porque é onipotente, pede ao homem para colaborar com a sua obra e o seu maravilhoso projeto, e o que esse faz é pouco, mas sem a sua participação a obra não chegaria à sua conclusão, ao assumir aquele filho como seu, perante o sistema religioso da época, José tornou possível o cumprimento das promessas de que da descendência de Davi nascesse o Messias, como havia dito o profeta Isaias. Tanto a Acaz como a José, Deus tem uma palavra de encorajamento: Não tenhas medo! E também oferece um mesmo sinal: uma Virgem irá conceber... Revelação que só pode ser acolhida na fé e na humildade, virtudes estas que o rei nunca teve, pois o seu coração, corrompido pelo poder, só sabia confiar nos projetos humanos.

E o desafio de José foi muito maior, a justiça que lhe é atribuída como maior virtude, não era aquela do legalismo religioso, pois se fosse apenas isso, bastava denunciar a noiva, que estava lhe prometida em casamento, e sairia da história fazendo o papel de moço piedoso e zeloso dos bons costumes, e a Maria de Nazaré caberia o triste papel de mulher infiel, adúltera e vulgar, passível de uma morte por apedrejamento. Mas José prefere acreditar no seu sonho que é sonho de Deus. A Fé jamais será uma utopia, mas sim a realização do sonho de Deus, concretizado em seu projeto de salvação, que vai acontecendo na medida em que como José, vamos a ele aderindo, para fazê-lo acontecer. (4º Domingo do Advento)

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Costa — 4º Domingo do Advento — ANO A

São José no Advento

Como o Evangelho da Infância segundo São Mateus é escrito desde a perspectiva de José – diferente de Lucas, escrito desde a perspectiva de Maria – vamos pensar hoje, na presença de Deus e à luz do texto evangélico, na figura desse grande homem, São José, no Tempo do Advento.

Uma das primeiras coisas que chama a nossa atenção na vida de José é o grande privilégio que ele teve: morar com Jesus e com Maria, cuidar deles, sustentá-los e ensinar-lhes muitas coisas. De fato, o nome “José” significa “Deus acrescentará”. E como acrescentou! Nós também pedimos a Deus que ele acrescente em nossas vidas a companhia de Jesus e de Maria, e de José. Nunca andemos sozinhos podendo estar tão bem acompanhados.

José é um homem justo (cfr. Mt 1, 19): convencido da inocência de Maria, ele sabe que não pode proceder ao rigoroso cumprimento da lei, que consistia em apedrejar os culpados (cfr. Dt 22,20ss). Maria não era culpada. Por outro lado, como proteger uma criança sob o próprio nome quando não se sabe quem é o pai? Se José fosse um legalista, não pensaria duas vezes: cumprimento da lei tal qual. Mas S. José não ficou somente na letra da Lei. Desde a sua infância meditava a Lei de Deus e a tinha gravada no coração, tinha atingido o espírito da Lei e procurava conhecer realmente a vontade de Deus em cada circunstância concreta. A justiça de José não é “justiça de José”, mas de Deus. Essa justiça está, ademais, banhada pela prudência, pela bondade e por um grande desejo de conhecer e praticar a vontade de Deus, que é bom.

Grande privilégio de S. José: é ele quem dá nome e sobrenome a Jesus. O anjo já tinha dito a José que colocasse o nome de Jesus no menino que nasceria. Além do mais, José, fazendo tudo o que o anjo lhe disse, assumiu Jesus como seu filho adotivo e lhe deu também o sobrenome real: da casa de Davi. Por causa de José, Jesus pode ser chamado também “filho de Davi” e dessa maneira se cumpriu a promessa de que viria um Messias da casa de Davi.

Uma das varias virtudes de S. José foi a disponibilidade. O Espírito Santo deixou escrito que “despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado” ( Mt 1,24). Deus nos ajude a ser generosos, especialmente nesses últimos dias que faltam para que contemplemos, através da liturgia da Igreja, o nascimento do Senhor. Talvez, um dos aspectos que deveríamos pensar mais nesses dias que faltam para o Natal seja a disponibilidade do nosso tempo para Deus e para os demais. Quanto tempo nós dedicamos à oração? Jesus é uma pessoa. Daí a importância de marcar alguns horários para estar com ele. Pensemos juntos: se tivéssemos que encontrar-nos com um personagem importante – um homem de estado, por exemplo – estaríamos lá no local combinado não só pontualmente, mas talvez até uns minutinhos antes para não correr o perigo de perder o esperado encontro. Por que não usamos semelhante critério para com Deus? É preciso que tenhamos os nossos horários diários de oração e sejamos pontuais. Jesus está nos esperando! Não podemos ser descorteses com o personagem mais importante da história da humanidade e da nossa vida. Além desses horários fixos durante o dia para ler um pouco a Sagrada Escritura, para conversar com Deus meditando os mistérios da vida de Jesus Cristo, para rezar o terço, para participar da Santa Missa, para fazer uma visita a Jesus-Eucaristia, tenhamos presente durante todo o dia ao Deus uno e trino: basta o desejo de estar com o Senhor, uma pequena oração, uma elevação da mente às coisas divinas, pensar em Deus ao passar diante duma igreja, rezar mentalmente pelas pessoas que vamos encontrando pelas ruas, etc. Sejamos criativos à hora de buscar e viver a presença de Deus!

Somos generosos na nossa formação fazendo boas leituras e participando de palestras e conferências que nos ajudam a adquirir cultura católica? Ajudamos os demais a aproximarem-se Deus? Somos generosos no tempo que utilizamos para o apostolado, para a evangelização? Fora todo egoísmo! Dar coisas pode ser importante, mas o mais importante é que nos demos a nós mesmos num serviço alegre e generoso a Deus e, por amor a Deus, aos outros.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético — 4º Domingo do Advento — ANO A
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (Rm 1, 1-7)

INTRODUÇÃO: Paulo, escravo de Jesus Cristo, chamado como apóstolo, segregado para o evangelho de Deus (1). Paulus servus Christi Iesu vocatus apostolus segregatus in evangelium Dei. Esta epístola é o início da carta aos romanos. Primeiro vem o título de quem a remete e a ocasião de ser o evangelho como motivo da mesma aos que por meio da bondade de Deus estão escolhidos como a ele consagrados. A eles deseja os favores divinos e a paz que constituem a saudação inicial de suas cartas. ESCRAVO [doulos<1491>=servus]. Sendo a escravidão o sistema político-econômico fundamental do império romano, não é de estranhar que existissem diversas palavras na koinë. Vejamos as usadas tanto no NT como no AT grego dos Setenta. THERÁPÖN [<2324>=famulus] é um servo familiar, quase um amigo do dono, como vemos em Hb 3, 5: Moisés era fiel em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que haviam de ser anunciadas. Seria o escudeiro ou pajem da idade média. Provém do verbo Therapeuö, curar, tomar conta de um enfermo. DOULOS [<1491>=servus] é o escravo próprio, o comprado e vendido como uma máquina ou gado que deve  obedecer sem ter vontade própria ao dono, despotës grego. Como classe social é o oposto ao eleutheros [1658=liberus], homem livre como vemos em 1 Cor 12, 13: em um só Espírito todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos [douloi=servi] quer livres [eleutheroi=liberi]. DIAKONOS [<1249>=servens] independentemente do seu estado civil é primariamente o servidor à mesa como em Jo 2, 5: Maria falou aos serventes [diakonois=ministris]: fazei tudo o que ele vos disser. OIKETËS [<3610>=verna] escravo, mas no sentido de domiciliar e não do campo. É o escravo da casa ou familiar, geralmente melhor considerado que o trabalhador do campo ou das minas. Pode ser o criado embora não livre como classe social. Assim temos 1 Pd 2, 18: Servos [oiketai=servi] sede submissos, com todo temor ao vosso senhor. YPËRETËS [<5257>=minister] é tomado do serviço militar, originalmente um remador, para distingui-lo do soldado de uma galera. Daí passou ao oficial subordinado, como lictor, ou oficial de justiça, como em Mt 5, 25: para que teu adversário não te entregue ao juiz, o juiz ao oficial de justiça [ypëretë=ministro]. Ao se  designar como doulos, Paulo toma para si o ofício mais servil que existia entre os romanos. Verdadeiro escravo do evangelho que em 15, 16 da mesma carta resolve como leitourgos [<3011>= minister], palavra com que se designava o dedicado ao serviço oficial civil ou do templo. Em Ef 3, 7 ele se declara ministro [diakonos] do evangelho, coisa que repete em Cl 1, 23 com o mesmo vocábulo. Paulo toma a atitude do serviço como escravo de Jesus Cristo, exatamente como o Batista afirmava ser, sendo que este último se humilhava até declarar que nem o ofício de levar as sandálias como fazia o mais humilde dos escravos era digno de realizar (Mt 3, 11). Os discípulos de um mestre em Israel eram chamados de filhos (Mt 23, 9) e até de últimos irmãos (elachistoi adelfoi) (Mt 25, 40; 45)  e podiam fazer pelo mestre todo serviço de escravos, a exceção de desatar as correias das sandálias, ofício reservado aos escravos da gentilidade e do qual os escravos judeus estavam dispensados. Este ofício de carregar as sandálias para o banho do senhor é declarado por Marcos (1, 7) e Lucas (3, 16) como sendo o mais baixo, já que para eles não existia a proibição de desatá-las que Mateus, como legista, tinha o dever de respeitar. Paulo, pois, é o servidor de Jesus sem privilégio nenhum, e por isso nunca quis receber salário [misthos] ou benefício como os demais apóstolos, e ao qual tinha direito segundo as normas da Lei (1 Cor 9).

DIGNIDADE DE CRISTO: O qual foi preanunciado por meio de seus profetas em Escrituras Sagradas (2). Quod ante promiserat per prophetas suos in scripturis sanctis. PREANUNCIADO [proepaggellö <4279> = promisere] O grego pode ser traduzido também como prometido anteriormente, pois a palavra de Deus sempre é uma promessa de um bem futuro como profecia de salvação. ESCRITURAS [grafai<1124>=scripturae] SAGRADAS [agiai<40>=sanctae]:em outra ocasião temos descrito o significado de TANAK,[Torah, Nebiim e Ketubim] ou Lei, Profetas e Escritos em que dividiam o que Paulo, em outra ocasião, chama de Sagradas Letras [ierai gramma] (2 Tm 3, 15). Embora o latim traduza como sanctae, não podemos usar o santo como tradução vernácula, pois santo significa sem pecado; e assim usaremos sagrado, ou divino, pertencente a Deus, como indica o grego agios. Com esta afirmação Paulo coincide com Pedro onde lemos (2 Pd 1,19-21): Nos confirmamos mais ainda com a palavra dos profetas …sabendo ….que nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana.

CRISTO COMO HOMEM: Com respeito a seu Filho, o nascido do esperma de Davi, segundo a carne (3). De Filio suo qui factus est ex semine David secundum carnem. SEU FILHO [‘uios<5207>=filius] o grego ‘UIOS é usado praticamente para a prole humana, do gênero masculino, tanto a progênie direta como a de um descendente do tronco comum. Para filhas temos thygatër[<2364>=filia]. Outra palavra é teknon [<5043>=filius]; embora traduzido do mesmo modo em latim seja o filho natural enquanto a preeminência de ‘uios é para o aspecto legal. Temos também pais [<3816>=puer] menino ou criança com parentesco de filho sem ter limites de idade como seria o paidion[<3813>=puer], que é um menino de tenra idade. ‘UIOS é o termo usado em termos metafóricos para os judeus no AT [bené elohim= filhos de Deus] e para os cristãos no NT [‘uioi ‘upsistou= filhos do Altíssimo] com respeito a Deus em sentido de serem filhos adotivos. TEKNON é usado também no lugar de ‘uios: não só pela nação, mas também para reunir os filhos de Deus [tecna tou Theou] dispersos (Jo 11, 52) . Em Lc 1, 35 temos a palavra do anjo: o ser sagrado que há de nascer será chamado Filho [uios] de Deus. E em Mt 11, 27: Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho [‘uion] senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. À pergunta logo tu és o Filho [uios] de Deus? Ele disse: Vós o dizeis porque [óti] eu sou (Lc 22, 70). E os demônios declaravam: tu és o Filho [uios] de Deus. (Lc 4, 41). Jesus é o Filho em sentido literal, já que sempre diante de filho aparece o artigo determinativo ‘o [=o Filho]. Por isso em João encontramos o monogenës [= unigênito] (Jo 1, 18): o filho único, que está no regaço do Pai nos deu a conhecer. ESPERMA [sperma<4690>=semen] é a semente de uma planta ou o sêmen, esperma de um animal. Tomado em sentido figurado, é a prole ou descendência de um varão. Daí, família, raça, posteridade, descendência. Jesus era, pois, descendente de Davi. SEGUNDO A CARNE [sarkx<4561>=caro] é o corpo material que chamamos de carne. Em hebraico é bashar o oposto ao espírito, pneuma ou nefesh. Também o distinguiam do aima [sangue] donde estava a vida que era psichë. A distinção entre sarkx e söma é que aquele era considerado em oposição a psichë [alma] e söma era o corpo como um conjunto de partes unidas, entre elas ossos, carne, nervos. Literalmente sarkx é a carne distinta de sangue e ossos. Paulo distingue entre o corpo de  Jesus que tem carne e ossos antes da ressurreição [psykikos] e o corpo ressuscitado que ele denomina como corpo espiritual [pneumatikos] (1 Cor  15, 44). Por isso dirá: todos certamente não morreremos, mas todos sermos transformados (1Cor 15, 61). A frase segundo a carne indica a procedência humana de Jesus: era um descendente de Davi. Seu pai era legalmente  José, esposo de Maria da qual nasceu Jesus (Mt 1, 16), e o tal José era da casa de Davi (Lc 1, 27).

EXALTAÇÃO DE JESUS: Constituído Filho de Deus em poder segundo espírito de divindade por causa da ressurreição dos mortos, Jesus Cristo nosso Senhor (4). Qui praedestinatus est Filius Dei in virtute secundum Spiritum sanctificationis ex resurrectione mortuorum Iesu Christi Domini nostri. CONSTITUÍDO [oristhentos<3724>=praedestinatus] particípio de aoristo do verbo orizö, de significado definido, marcado, nomeado, designado, constituído. EM PODER [en dynamei<1411>=in virtute] esta frase é indício das faculdades extraordinárias de operar milagres acima das leis naturais como quem é o dono das mesmas, ou talvez poder, como exousia, autoridade, como rei do Universo após a sua ressurreição. ESPÍRITO DE DIVINDADE [pneuma <4151>agiösynes<42>=spiritus sanctificationis]. Parece que não é uma referência ao estado anterior de Cristo no seio do Pai como diz João (Jo 1, 1-2), mas Paulo se refere ao triunfo do Cristo ressuscitado e sua atuação através do Espírito que ele enviou e que na primitiva Igreja era chamado Espírito de Jesus. Para entender este versículo Cristo de Deus, devemos partir do suposto de que Paulo fala unicamente de Cristo como homem, ou como o próprio Jesus dizia de si mesmo, do Filho do Homem, que neste caso para Paulo é segundo a carne. (vers 3). Como homem, pois, foi constituído [o latim diz predestinado] Filho de Deus, ou seja, como um representante direito de Deus, como um que tem o poder e o espírito da majestade divina [agiösinë] e isso por causa da ressurreição. É a divinização do homem Jesus de Nazaré. Pois agiösinë significa a majestade, a santidade ou transcendência como hoje se diz, própria só da divindade. Este versículo é, portanto a exaltação do homem Jesus à categoria da divindade por causa da sua ressurreição. Não mais o homem, ou o Mestre Jesus, mas o Senhor ou o Cristo de Deus. E assim ele é o Senhor (At 2,  e 10, 36), como dirá Paulo em Fp 2, 11: Toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor.

MINISTÉRO PAULINO: Pelo qual recebemos mercê e apostolado para obediência da fé em todas as nações sobre seu nome(5). Per quem accepimus gratiam et apostolatum ad oboediendum fidei in omnibus gentibus pro nomine eius. E Paulo continua sob o impulso de sua experiência, declarando que dele [de Cristo] recebeu a graça [charis] ou favor e mercê do apostolado [apostollë <651>=apostolatum=envio] para que todas as nações [ethnë] pudessem receber a fé como obediência à pessoa de Cristo.

VOCAÇÃO DOS ROMANOS: Entre os quais estais também vós chamados de Jesus Cristo(6). In quibus estis et vos vocati Iesu Christi.  Entre essas nações [pagãs] estavam os romanos que também foram chamados, vocacionados ou escolhidos [klëtoi<2822>=vocati] para aceitar como Senhor, Jesus, o Cristo.

SAUDAÇÃO FINAL: A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados consagrados, graça e paz da parte de Deus, Pai vosso e do Senhor Jesus Cristo (7). Omnibus qui sunt Romae dilectis Dei vocatis sanctis gratia vobis et pax a Deo Patre nosostro et Domino Iesu Christo. Após esse prefácio em que Paulo mostra seus poderes e a transcendência do Senhor a quem serve de anunciador, termina esta primeira parte com a saudação por ele preferida em suas cartas: Graça [charis<5485>= gratia], ou seja, o favor e a mercê abundante por parte de Deus que é Pai e por parte do Senhor que é Jesus, o Messias. Também a paz [eirënë<<1515>=pax] que em lábios de um judeu era um pedido de todas as bênçãos possíveis da parte de Deus. E Paulo não poupa elogios aos cristãos romanos. É a captatio benevolentiae que aqui descobre os dons divinos em abundância entre os romanos: amados [agapëtoi<27>=dilecti] de Deus, e escolhidos como consagrados [agioi<40>=sancti] que geralmente vemos traduzido por santos, mas que originariamente é sagrado ou consagrado; isto é, dedicado à divindade. Na primitiva Igreja os fieis eram agioi, santos como eleitos e pertencentes ou dedicados ao culto divino, acepção primária inclusive do vocábulo latino.

EVANGELHO (Mt 1, 18-24) - A VISÃO DE JOSÉ

INTRODUÇÃO: João inicia seu evangelho, afirmando a eternidade do Verbo em Deus. Sem origem, existia desde o princípio. Essa é a última realidade de Jesus. Mas enquanto homem, qual foi sua origem? Mateus e Lucas descrevem o início do homem Jesus de modo diferente, porém, essencialmente idêntico. Lucas apela ao testemunho da mãe, Maria. Mateus, pelo contrário, descreve a situação do ponto de vista do marido, José. Ambos os relatos convergem para afirmar que o concebido no ventre de Maria não tinha pai humano. Que a concepção foi um ato do poder do Espírito Divino. Esse Espírito, que pairava presente sobre as águas primitivas no início (Gn 1,2), agora paira sobre Maria  para uma realidade que se parece com uma criação. Hoje, vamos estudar o evangelho de Mateus.

CONCEPÇÃO DE JESUS: Enquanto a concepção de Jesus Cristo era (sic) desta maneira: prometida, pois, a sua mãe, Maria, a José, antes da coabitação deles, foi achada tendo em ventre de Espírito Santo (18). Christi autem generatio sic erat cum esset desponsata mater eius Maria Ioseph antequam convenirent inventa est in utero habens de Spiritu Sancto. CONCEPÇÃO: Esta seria a tradução mais acertada e não nascimento de muitas bíblias. A bíblia de Jerusalém traduz origem de duvidoso significado. Com o significado de conceição, damos origem ao que, no mundo oriental ortodoxo, é denominada Conceição Imaculada [de Jesus], ou seja, desde a sua origem, como óvulo, Jesus não teve um sêmen masculino. Assim podemos afirmar que a primeira carne do Filho de Deus foi totalmente Mariana, e totalmente humana, pois não foi uma carne criada, mas gerada. JESUS CRISTO: A palavra aparece duas vezes em Mateus: uma, em 1,1 e ainda em 1, 18; e outras duas vezes, das quais uma, em Mc 1, 11 e outra, em Jo 17, 3, sempre como redação dos evangelistas, não como palavra saída do contexto falado por Jesus ou elaborada pela voz dos conterrâneos. Foi uma composição tardia na qual se uniu o nome Jesus com o fato de ser o Ungido, ou Cristo. A frase seria,  pois: Jesus é Cristo, como primitiva fórmula de fé, porque o verbo ser não era usado nas línguas semíticas.  A TRADUÇÃO: Na tradução latina, o verbo ën=era ou estava em imperfeito, é mantido com o erat. Outra tradução literal é em ventre que em português tem o artigo  e se diz no ventre ou no seu ventre. Tampouco o Espírito tem artigo, contrariamente, quando se fala da terceira pessoa da Trindade que é nomeada como o Espírito, o Santo, sempre com artigo [exemplos: Mt 12, 32; 28, 19 e Mc 1, 10; 3, 29 entre outros]. Sem artigo, significa o poder de Deus. MNESTEUTHEISES: A tradução é prometida. Gynë <1135>, em Mc 6, 17 e Lc 16, 18 é o nome dado a esposa em grego, nos evangelhos. Mnesteutheises é o particípio passivo do aoristo [passado] do verbo mnesteuo, que significa prometer em matrimônio, e como particípio passivo, ser declarada desposada ou noiva formal. Para entender isso, devemos entrar nos costumes judaicos da época de Jesus. O matrimônio era um contrato entre famílias. Contrato que se assemelhava a uma compra. A mulher era praticamente uma escrava, vendida pelo preço de um dote. Esse contrato em hebraico era o Ketubbá [=escrito] que estabelece obrigações assim como uma penalidade monetária no caso de divórcio. Uma mulher virgem valia 200 denários ou 200 dias de trabalho e uma viúva valia uma mina, ou seja, a metade aproximadamente. Uma mulher que tinha o Ketubbá dos esponsais era considerada esposa para todos os efeitos legais. Por exemplo, o sumo sacerdote não podia se casar com uma viúva (Lv 21, 14) e a Mishná afirma que essa viúva é tanto viúva após o casamento quanto  viúva tão só após os esponsais. Para um novo matrimônio, a viúva deve esperar três meses (tempo suficiente para saber se está grávida) sejam já casadas, divorciadas, ou prometidas em esponsais, porque o noivo, na Judeia, tem intimidade com ela. Com isto, fica provado que a prometida por meio do Ketubbá era praticamente uma esposa. Segundo os costumes da época, entre os esponsais e o matrimônio propriamente dito devia passar meio ano. A mulher virgem a se casar, pela primeira vez, teria na época 12 anos e meio. O  grego clássico usa o gameo para indicar matrimônio, e gameté [esposa]. Todavia no NT a palavra usada é gyné [mulher] com o duplo significado de fêmea humana e de esposa. Usa também o NT a palavra nymfe, jovem núbil, também com o significado de nora (Mt 10, 35). Parece claro que Maria estava unicamente prometida com a correspondente Ketubbá. Lucas usa a mesma raiz só que no tempo perfeito mnesteumene. Nas línguas modernas é difícil distinguir entre os dois tempos, aoristo e passado. Esta hipótese é realçada pelo mesmo evangelista quando afirma: antes que coabitassem ou convivessem. TENDO EM VENTRE: É a tradução direta do grego, que em português, devemos usar no ventre. Isto, como temos dito anteriormente, dava-se aos três meses da conceição. DE ESPÍRITO SANTO: A tradução do Espírito Santo não corresponde ao grego. A razão é que quando os evangelistas querem significar a terceira pessoa da Santíssima Trindade usam o artigo repetido : O Espírito, O santo [to pneuma <4151> to agion <40>]. Nas outras circunstâncias, espírito santo significa o poder de Deus: Ele batizará com espírito santo e fogo [en pneumati ágio kai pyri] contraposto a quem fale contra o Espírito o Santo [kata tou pneumatos tou agiou]. No nosso caso, está sem artigo algum e, portanto refere-se ao poder de Deus, exatamente como Lucas 1, 35. Isso não obstante a tradição, que chama Maria esposa do Espírito Santo, reflete a ideia de que foi a terceira pessoa da Trindade que pessoalmente, de modo muito especial, contribuiu para a geração do corpo de Jesus. Esta é uma noção completamente válida, pois a própria Escritura indistintamente fala dos profetas como falando no Espírito o Santo (Mc 18, 36) ou como cheios de espírito santo (Lc 1, 67). É o mesmo tipo de diferença entre o anjo de Javé e a intervenção direta divina no AT. O evangelista, com a frase da parte do Espírito divino [santo], exclui toda intervenção humana masculina na formação do corpo de Jesus. Era na realidade uma partenogênese. Do ponto de vista médico, a partenogênese é possível desde que o nascituro seja do mesmo gênero que a mãe, ou seja, uma mulher [hoje também se pode admitir a partenogênese masculina]. O sêmen masculino do pai era o único que determinava, ou melhor, gerava o novo ser, segundo o pensar da época. A mãe era uma depositária, uma horta onde a semente crescia interiormente alimentada com seu sangue e, depois exteriormente, com seu leite. Por isso o ek [de procedência] grego de Mateus, diz mais do que o nosso de, ou pelo Espírito divino, como geralmente traduzimos. A tradução da vulgata in útero habens de Spirito sancto, confirma  a hipótese que acabamos de formular. Lucas (1, 15),  ante a pergunta de Maria que é uma interrogante para iniciar uma explicação, mais do que uma escusa de sua parte, fala do poder do Altíssimo [equivale ao próprio Deus]. Este ser sagrado será chamado [será verdadeiramente] filho de Deus. Esta é a verdade. O catecismo do Pe. Astete dizia : O Espírito Santo formou do puríssimo sangue de Maria um corpo. No século XVI nada se sabia sobre o óvulo feminino, descoberto no final do século XIX, mas hoje que sabemos como a mulher contribui com seu óvulo, podemos afirmar que um dos óvulos de Maria foi em um primeiro momento o início da vida humana do Verbo. Houve um instante em que o corpo de Jesus era totalmente corpo de Maria. Isso exalta tanto a mãe como o filho. De modo que ela pode ser chamada de Theótokos, a que gerou Deus, ou Mãe de Deus. E como o Filho seria o resultado de uma intervenção divina particular, consequentemente, Maria seria virgem, a aei parthenos [= sempre virgem] grega, em cujos ícones estarão sempre as três estrelas como símbolo de Virgem antes do parto [concepção imaculada], no parto e depois do parto. Obviamente, não temos estátuas, proibidas desde o tempo de Leão o Isauriano, entre os gregos; mas os ícones representam em termos visíveis o que não era possível para a maioria: ler nos textos sagrados, porque era iliterata.

JOSÉ E SUAS DÚVIDAS: Porém, José, o seu homem, sendo honesto e não querendo expô-la publicamente, pensou repudiá-la secretamente (19). Ioseph autem vir eius cum esset iustus et nollet eam traducere voluit occulte dimittere eam. SEU HOMEM: Já temos explicado que, após os esponsais, ambos eram considerados marido e mulher. Não é, pois, estranho que Mateus fale de José como o marido [homem] de Maria. SENDO HONESTO: Existe uma incorreta maneira de traduzir o dikaios [conforme, ou melhor, ajustado com a lei] grego por justo [do latim iustus] que em linguagem moderna tem significado diferente,  como amante da justiça ou imparcial. Na realidade, dikaios era aquele que cumpre escrupulosamente a lei, a Torá antiga. E José se debatia precisamente por cumprir a lei. Qual era a lei neste caso? Uma desposada era considerada exatamente como uma esposa real. Segundo Dt 22, 13-21, quando uma jovem não tem provas de sua virgindade ao casar com um homem a jovem será levada à porta da casa do seu pai e os homens da cidade a apedrejarão até que ela morra, pois ela cometeu uma infâmia em Israel(…) Deste modo extirparás o mal do teu meio. José não queria colocar o caso em público [traducere afirma o latim da vulgata, que num dos seus significados implica expor alguém à vista e como em espetáculo, por vergonha], ou seja, denunciar Maria como adúltera de modo público. Segundo a lei, ele tinha todo o direito de denunciar publicamente Maria. Porém, ele escolheu um método que era também legal: fazer uso do chamado libelo de divórcio antigo (Mishná Git 8, 4). Que é o libelo antigo? Libelo [guet] era o documento em que o varão deixava livre para futuro matrimônio a mulher que até esse momento era sua esposa. Era um escrito em que duas testemunhas corroboravam a fórmula principal: tu ficas livre para casar-te com qualquer homem. Devia estar escrita em hebraico contendo 12 linhas, valor numérico da palavra guet fora das duas meias linhas onde assinavam as testemunhas. No libelo de divórcio antigo o escrito era entregue a sós à mulher, sem testemunhas. Se ela era menor de idade [entre 12 anos e um dia mas sem chegar aos doze anos e meio], podia ser entregue ao pai da jovem prometida (Git 6,2). Cremos que é a este libelo ao qual se refere Mateus quando afirma que quis repudiá-la  secretamente, ou seja, sem testemunhas, como era o caso de libelo de divórcio antigo.

O SONHO: Enquanto, pois, pensava em sua mente estas coisas, eis um anjo do Senhor por meio de um sonho, se manifestou a ele, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher: pois o nela gerado é de espírito divino (20). Haec autem eo cogitante ecce angelus Domini in somnis apparuit ei dicens Ioseph fili David noli timere accipere Mariam coniugem tuam quod enim in ea natum est de Spiritu Sancto est.  O ANJO: Todo fenômeno misterioso, como uma peste, um terremoto, uma epidemia,  especialmente se mortífera, era atribuído ao anjo do Senhor. Como exemplo temos o caso de  Senaquerib e seu exército em 2Rs 19, 35, cuja matança foi produzida, ao que parece, pela poluição das águas. O Mal’ak <4398> significa mensageiro e é usado como mensageiro humano enviado por um rei ou líder para executar uma missão humana. Contudo essa mesma expressão é usada para indicar um ser celeste, um anjo. E será então Malak Adonai [mensageiro do (meu) Senhor]. Na Bíblia há uma referência de uma corte celestial, com Deus como Rei e os anjos como seus servos. Os anjos [Malakim] aparecem sob forma humana como emissários a transmitir as palavras de Deus aos homens e realizarem missões práticas, como a liderança no deserto e a derrota de Senaquerib. O lugar dos anjos é o céu [sonho de Jacó] e que, em seu disfarce humano, nem sempre são reconhecidos pelos mortais. No caso, o Anjo do Senhor traduz o Malak Adonai. Mateus disse que se manifestou [efane] foi visto como luz como um ser luminoso, seria a melhor tradução. A vulgata traduz apparuit [apareceu]. O mesmo anjo apareceu mais duas vezes a José: para pedir-lhe que fosse ao Egito com o menino (Mt 2, 13) e para volver à Judeia uma vez morto Herodes (2, 19).  O SONHO: Em sonho é como aparece o anjo do Senhor. Atualmente os sonhos são produtos do inconsciente. Mas, nos tempos bíblicos, os sonhos eram o meio com o qual a divindade mostrava sua vontade com respeito ao futuro, ou manifestava razões que determinavam uma conduta. Temos o caso de Abimelec, que Deus visitou em sonhos de noite e disse: Vais morrer por causa da mulher, porque é uma mulher casada (Gn 20,3). Jacó teve o sonho da escada (Gn 28, 12). José teve o sonho que o engrandecia sobre seus irmãos (Gn 37,5). São famosos os sonhos de Faraó, que José interpreta corretamente (Gn 41, 1). O Senhor lhes disse: Enquanto houver entre vós um profeta do Senhor, eu me dou a conhecer a ele em visão, e lhe falo em sonhos (Nm 12, 6). Saul consultou o Senhor; mas ele não respondeu nem por sonhos, nem por urim [tipo búzios] nem por profetas (1 Sm 28,2). Finalmente Deus concedeu a aqueles quatro jovens, ciência e inteligência em matéria de escritura e de sabedoria. Daniel, em particular, sabia interpretar toda classe de visões e sonhos (Dn 1, 17), como foi o caso de Nabucodonosor em Dn 2,1. Consequentemente, José acreditou no sonho e no que foi declarado pelo anjo, porque era os sonhos uma maneira explícita da manifestação da vontade de Javé. PALAVRAS DO ANJO: José [= ele, ou seja, Javé acrescenta] filho de Davi. A descendência de Davi por parte de José é destacada pelo anjo. Era um título de respeito, mas ao mesmo tempo é um artifício do evangelista para afirmar que Jesus era também filho de Davi, porque a filiação era, na época, mais legal que biológica. Não temas receber Mariam como tua mulher. A primeira palavra é não temas. Poderíamos dizer que o significado de fobeö, no caso, é não hesites, não deves te preocupar em receber Maria em tua casa,  como tua mulher. Mateus dá o nome de Mariam que parece ser o nome semítico de Nossa Senhora. O anjo imediatamente dá a razão: O gerado nela é coisa do Espírito Divino. Temos traduzido o ágios grego por divino. Na realidade, seria sagrado ou pertencente à divindade. Tendo em  conta de que o varão era o único que intervinha na geração, segundo o pensar da época, a frase anterior significa que o ser gerado no ventre de Maria era um ser divino. Porém, pela gestação, completamente normal, esse ser seria também filho de Maria que dará à luz um varão, seu filho (v 21).

JESUS: Parirá, pois, um filho e chamarás o nome dele Jesus; porque ele próprio salvará o seu povo dos seus pecados (21). Pariet autem filium et vocabis nomen eius Iesum ipse enim salvum faciet populum suum a peccatis eorum. UM FILHO: Com esta frase o anjo chama Maria de mãe de um ser que antes tinha denominado de divino. É a palavra que origina o theótokos do Concílio de Éfeso, ao mesmo tempo em que confirma o sentir dos contemporâneos que a chamam sempre Mãe de Jesus (At 1, 14), ou Mãe do Senhor (Lc 1, 43). JESUS: E chamarás o nome dele, Jesus. Iësous<2424>, que provém do hebraico Ieshua <03091> e que significa Javé salva ou cura. Um pai [e no caso, o filho] só era reconhecido como tal quando aceitava o filho dando a ele um nome, tal como sabemos fez Zacarias com o menino que lhe apresentou Isabel (Lc 1, 63). E Mateus explica que esse nome foi escolhido de modo particular pelo verdadeiro Pai não por José. O motivo era que em si levava o ofício de salvar seu povo dos pecados deles. Jesus ou Jeshua significa Javé é salvação. Os pecados, logicamente, são os pecados pessoais. Daí salvar o povo de seus pecados ou dos pecados deles, e não de seu pecado. Refere-se ao povo de Israel e dentro dele faz uma referência às relações homem/Deus, sendo os pecados a parte que rompe uma amizade que devia existir entre ambos e que o homem, infelizmente, por própria e livre vontade, interrompeu desde a origem de sua existência. O anjo diz claramente o ministério e incumbência do menino que por isso mesmo receberá o nome de Jesus. Não existe outra interpretação: a salvação está unida ao perdão dos pecados, tendo como prioridade o povo escolhido.

A PROFECIA: Porque tudo isto tem sucedido para que se cumprisse o proferido pelo Senhor por meio do profeta, dizendo: (22) Eis que a virgem acolherá no ventre e parirá um filho e chamarão o nome dele Emanuel,  que é  traduzido por Deus conosco (23). Hoc autem totum factum est ut adimplerétur quod dictum est a Dómino per prophétam dicéntem: Ecce virgo in útero habébit et páriet fílium, et vocábunt nomen eius Emmánuel”, quod est interpretátum nobíscum Deus. PARA SE CUMPRIR: Para Mateus como para todo israelita do seu tempo a maior prova de que um fato ou uma pessoa estivesse realmente atinado com a vontade divina era que se ajustava aos planos anunciados pelos seus porta-vozes, os profetas. Javé era dono do Mundo e senhor da História. O PROFETA: As palavras que na continuação cita Mateus, são do profeta por excelência, Isaías 7, 14: Eis a virgem terá no útero e dará à luz um filho e chamarão seu nome Emanuel. É uma tradução direta do grego. O texto hebraico tem uma palavra almah <5959> que se traduz por donzela, jovem solteira, virgem. O grego dos setenta traduziu a palavra por parthenos [=virgem]. Termo que usa Mateus em seu evangelho e que resultava tão contundente contra os judeus que por esta e outras razões eles abandonaram a setenta e fizeram outras duas traduções como são Áquila e Teodocião em que almah é traduzido por veânis [donzela, jovem] que nada tem a ver com virgem, pois se admite que a palavra para virgem em hebraico é bethuwlah <01330>. Porém não é tão exato como parece. Como exemplo em Gn 24, 16 Eliezer, servo de Abraão pensa na moça Almah [puella da vulgata] de formosa aparência, virgem bethuwl [virgo] a quem nenhum homem havia possuído. Em Êx 2, 8 a irmã de Moisés recebe o adjetivo de almah, [puella] porque era uma mocinha. No caso de Isaías 7, 14 existe um sinal [prodígio?] porque uma almah que seria uma jovenzinha conceberá e dará à luz um filho e chamareis seu nome Emanuel. O texto massorético diz que ela o chamará mas o texto grego e a vulgata são unânimes em traduzir parthenos,  virgo e chamareis. Eis o texto da nova Vulgata: virgo concipiet et pariet filium et vocabit nomen eius Emmanuel.  Como vemos aqui, é ela quem dá nome ao filho. Tanto no caso da Vulgata como da nova Vulgata não aparece o artigo determinante [a] por faltar em latim semelhante individualização. O artigo grego a [virgem] determina mais a pessoa feminina como uma particularidade muito especial. O assunto é discutido até hoje. Se não era virgem como pode ser sinal partindo do próprio Deus? Como ela, uma mulher, poderia dar nome a um filho obtido de forma normal, cujo nome sempre pertencia ao pai? Daí que a setenta, à qual segue servilmente a vulgata de Jerônimo, traduz exatamente como vemos em Mateus 1, 23, almah por parthenos e virgo. O nome, que implica um significado de ofício ou desempenho, é Emanu-El, [conosco Deus]. O caso, interpretado por Mateus como sendo o cumprimento da profecia de Isaías, era perfeito para explicar tanto a gravidez de Maria como a atuação do Filho durante sua vida: era ter Deus no meio de seu povo. Que melhor descrição de vida de Jesus?

OBEDIÊNCIA: Tendo, pois, se levantado José depois do sono, fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua mulher (24). Exsúrgens autem Ioseph a somno fecit sicut praecépit ei ángelus Dómini et accépit cóniugem suam. José, ao despertar, fez o que lhe fora mandado pelo anjo e recebeu Maria como sua esposa. Isto indica que antes não estavam casados e só prometidos legalmente com o Ketubbá. Daí deduzimos que Maria era uma donzela de 12 anos e mais nove meses, quando entrou a formar parte da casa de José como sua mulher.

PISTAS:

1) Jesus não é um homem qualquer; na sua humanidade existe uma intervenção direta do poder de Deus. Ele tem uma mãe terrena, mas o Pai dele, meu Pai dirá ele, e vosso Pai, é o próprio Deus. Porém essa sua permanência desde a conceição até seu nascimento no seio de Maria o torna semelhante a nós em tudo. Se o primeiro Adão [homem] foi feito espírito vivente pelo sopro [pneuma] divino, o segundo Adão, Cristo, foi feito homem pelo espírito divino que transforma um óvulo humano em ser divino, totalmente dependente da divindade [será chamado Filho de Deus (Lc 1, 35) ou Deus conosco].

2) É admirável a simplicidade da narração. Mas também é apreciável o modo como é efetuada: José conhece o caso pelas palavras do mensageiro de Deus, como num sonho. Este sonho implica uma duplicata da realidade que temos que conhecer, em profundidade, unicamente com os olhos e ouvidos interiores. Por meio de uma fé que depende de um relato humano, mas que unicamente aceitamos porque avaliado pela palavra divina.

3) A dúvida de José era se podia aceitar uma mulher que, em termos legais, era uma idólatra e, portanto, maculava o matrimônio de modo a atingir de forma pecaminosa o esposo, cuja infâmia, portanto,  deve ser extirpada. Aceitá-la era impossível. O meio de recusá-la era a dúvida principal de José. Como temos exposto, escolheu um método que a deixava fora de suspeitas adúlteras, mas que impediria a união matrimonial, porque nesse caso, como marido de uma mulher infiel, comparável a uma idólatra, estaria ele colaborando com o mal. O libelo, ou escrito de repúdio antigo, foi a forma escolhida por José. Não era preciso relatar causas, mas deixar claro que não deviam existir vínculos ulteriores. Tudo estava terminado.

4) A visão em sonhos declara os fatos e inocenta Maria. Mais, a eleva à categoria de especial escolhida por Deus para ser mãe do Salvador esperado. Existe outro aspecto a ser tomado em conta: pede a José que atue como pai. Ninguém saberá o acontecido e todos pensarão numa conceição, gravidez e nascimento comuns.

5) José aceitou o encargo e se tornará pai –todos assim o pensavam – de um menino a quem impõe o nome, Salvador dos pecados de seu povo, não dos inimigos externos ou do poder estrangeiro, mas dessa ruptura essencial do homem com Deus que Cristo inicia a dissolver e da qual sempre será causa de anulação por meio da reconciliação. Era o antigo decreto de morte que acompanhava o afastamento do homem. Agora, por parte de Deus, todos somos filhos em seu Filho. Por parte humana, individual, essa nova realidade é assumida particularmente por meio da fé e a conversão em que não é o homem quem dita a ética vital, mas o Homem Jesus quem a proclama no seu evangelho.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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15.12.2013
3º DOMINGO DO ADVENTO — ANO A
( ROXO, CREIO, PREFÁCIO DO ADVENTO I – III SEMANA DO SALTÉRIO )
__ "És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?" __

(Acender mais uma das quatro velas da coroa do Advento)

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

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NOTA ESPECIAL: VEJA NO FINAL DA LITURGIA OS COMENTÁRIOS DO EVANGELHO COM SUGESTÕES PARA A HOMILIA DESTE DOMINGO. VEJA TAMBÉM NAS PÁGINAS "HOMILIAS E SERMÕES" E "ROTEIRO HOMILÉTICO" OUTRAS SUGESTÕES DE HOMILIAS E COMENTÁRIO EXEGÉTICO COM ESTUDOS COMPLETOS DA LITURGIA DESTE DOMINGO.

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: A alegria invade o terceiro domingo do Advento, mas nos coloca uma condição: manter- -nos firmes na esperança, a semelhança do agricultor que planta a semente na terra e espera o tempo necessário para produzir os frutos. Quem vive exilado ou prisioneiro de dúvidas, corre o ris - co de perder a esperança ou fazer uma imagem decepcionante de Deus. A esperança que temos é a mola propulsora de nossa vida. E a esperança do cristão é Jesus. Ele é aquele que havia de vir. Não precisamos ir atrás de outros messias, oferecidos pelo mundo do consumo, por promessas políticas ambíguas e assim por diante. Consumo e política são propostas humanas, e podemos servir-nos delas conforme convém, com liberdade. Mas o Messias vem de Deus; ele merece nossa adesão, nele podemos acreditar. Chama-se Jesus. Esperamos, pois, que o amor e a justiça que Cristo veio trazer ao mundo, e nos quais somos chamados a participar ativamente, realizem os planos de Deus para a humanidade, desde já e para sempre.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: No terceiro Domingo do Advento, continuamos a aprofundar a nossa espiritualidade por meio da vigilância e da oração. Nesta semana, muitas famílias e Grupos de Rua começam a novena do Natal e será grande a alegria em nossas comunidades. A Campanha para a Evangelização chega ao seu auge com o gesto concreto da coleta nas Missas. Porém, o mais importante é não terminar aí esta campanha que ajudou a avivar os nossos corações para o espírito missionário. Dessa forma, o Natal será uma verdadeira festa iluminada pela alegria da nossa redenção.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Alegria da volta à Pátria, alegria da saúde readquirida, alegria pela liberdade reconquistada, através da qual se é reintegrado na vida civil e religiosa do povo: eis o fruto da intervenção de Deus que salva. Anunciada pelos profetas (1ª leitura) como novo êxodo, a volta do exílio é vista como um ato do poder e do amor exclusivo de Deus pelo seu povo, embora, depois, na realidade, tenha favorecido apenas a um pequeno resto de deportados, e não correspondido totalmente às suas expectativas. Mas o anúncio permanece sempre válido porque voltado para um tempo em que terá seu pleno acabamento. Cristo vem como aquele que guia, em sua volta para Deus, a humanidade perdida; desanimada e extenuada. Mas essa volta se explicitará no decorrer das gerações; a libertação exige tempo e fadiga; a alegria é antes, a de quem venceu uma das etapas, o que mantém viva sua esperança de atingir a meta final.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo entoemos alegres cânticos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Is 35,1-6.10): - "Alegre-se a terra que era deserta e intransitável, exulte a solidão e floresça como um lírio."

SALMO RESPONSORIAL 145(146): - "Vem Senhor, nos salvar. Vem sem demora nos dar a paz!"

SEGUNDA LEITURA (Tg 5,7-10): - "Irmãos, ficai firmes até a vinda do Senhor."

EVANGELHO (Mt 11,2-11): - "Eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti."



Homilia do Diácono José da Cruz — 3º Domingo do Advento — ANO A

"AS DÚVIDAS DA NOSSA FÉ"

Muita gente pensa que a Fé não suscita dúvidas porque que com ela , sempre as coisa dão certo, sem erros ou tropeços. O evangelho desse terceiro domingo do advento apresenta-nos novamente João Batista, aquele mesmo do evangelho do domingo anterior, que nos foi nos apresentado como um pregador muito bem sucedido, atraindo as multidões ao deserto e convencendo-as a se converterem recebendo o Batismo Penitencial, João Batista um homem rústico que se vestia rudemente e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre: que não tinha  “papas na língua” e chamou os Saduceus e Fariseus de cobras venenosas, e que também denunciou a Herodes o pecado do adultério, que ele cometia contra o próprio irmão. Mas no evangelho de hoje o quadro mudou drasticamente, o pregador do deserto, Profeta vigoroso e fiel, voz do que clama no deserto, está na prisão, e ainda como se isso não bastasse tem dúvidas se Jesus é realmente o Messias que ele anunciou e envia discípulos para confirmarem. Quantas vezes nossos trabalhos pastorais cheiram o fracasso, parece que tudo deu errado... Se Jesus não fosse o Messias, a missão de João Batista teria sido um fracasso total, e eu vou ainda mais longe, se João visse Jesus morrer na cruz, poderia acabar achando que ele não era o Messias, pois o que fora anunciado não conferia com o que estava acontecendo, anunciou um Messias Forte e Poderoso, implacável com os maus....

O que teria acontecido com João Batista? Nada de mais! As dúvidas fazem parte da nossa fé. A Bíblia nos traz outros exemplos, ao ser anunciada que iria ser a Mãe de Deus, Maria, por exemplo, teve dúvidas “Como isso vai acontecer?”. Os apóstolos foram outros que também duvidaram e por conta disso, cometeram “gafes” terríveis, basta lembrar a figura de Pedro – Chefe dos Apóstolos, o tal que não queria que Jesus morresse, ou  Tiago e seu irmão, que queria um lugar de honra ao lado do novo Rei, quando ele fosse reinar. E quem achar que a ressurreição do Senhor acabou de vez com esse problema, está enganado, Jesus em mais de uma vez foi confundido com um Fantasma ao aparecer aos discípulos, e o exemplo mais bonito de quem teve dúvidas, o apóstolo Tomé, que enquanto não viu e não tocou no Senhor, não acreditou.

Depois disso vieram as dúvidas sobre a missão, os apóstolos não viram com bons olhos o início da pregação de Paulo em outras terras fora de Jerusalém, a lógica da missão em terras distantes não fazia parte do raciocínio de nenhum deles,  e se alongarmos a lista, veremos quantos santos e santas de Deus, em sua vida de Fé, algum dia tiveram dúvida, passaram por uma crise, tiveram que fazer perguntas, como João Batista.

Pronto! Agora podemos olhar a nossa vida de Fé , vivida principalmente na comunidade, e admitir com sinceridade que muitas vezes duvidamos, cometemos o mesmo pecado de João, vimos os sinais mas ficamos na dúvida. João não se enganara em sua pregação, anunciara um tempo novo por conta do Reino que já estava no meio do povo, e pregara com veemência a necessidade de uma profunda conversão, para acolher a Salvação que esse novo Reino iria trazer. João só se equivocou em uma coisa, no modo como Jesus iria fazer a salvação acontecer. O amor grandioso e a infinita misericórdia de Deus, plenamente manifestada em Jesus o Filho, surpreendeu João e continua a surpreender a nós todos. Certamente nós também imaginamos e até queremos um Deus que no final dos tempos, venha arrebentando com as forças do mal, varrendo todos os homens maus da face da terra, destruindo-os no fogo do inferno. Os sinais não conferem, o Messias é humano demais, solidário com os pobres, marginalizados, anda com gente mal vista, e os que têm a “marca” do pecado, por conta de alguma deficiência, são curados e libertos, coxos, cegos, paralíticos, mudos e surdos, mortos ressuscitam....

O amor de Deus é desconcertante e isso gera muitas dúvidas em nossa Fé, porque acreditamos muito mais no Deus vingativo, que pune cruelmente os maus e os que não crêem, e com isso fazemos  da religião um esconderijo seguro para fugir da ira Divina, achando que na comunidade, cumprindo com todas nossas obrigações, estaremos a salvo. A descoberta de um Deus que é puro amor, nos enche de alegria. A liturgia desse 3º Domingo do Advento, quer nos levar a essa descoberta, Jesus revela um Deus extremamente amoroso, que age sempre com misericórdia e paciência com os homens.

Nossas comunidades cristãs, não só devem ser sinais, mas também perceber a presença do Reino nas pessoas que promovem e valorizam a Vida como dom Sagrado,  buscam a verdade, promovem a paz e lutam corajosamente pela Justiça, pois esses são os autênticos sinais libertadores do Reino que Jesus inaugurou. Podemos ter dúvidas como o Batista, mas o que não pode acontecer é perdermos de vista esses valores e deixarmos de lutar por eles, daí, nossas pregações e testemunhos cairão no vazio, porque sempre gerarão dúvidas entre o Cristo que anunciamos, e a Fé que vivemos, pois a Fé sem obras é morta, nos diz Tiago. (3º Domingo do Advento)

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Costa — 3º Domingo do Advento — ANO A

Prova de fé

“Sois vós aquele que deve vir, ou devemos esperar por outro?” (Mt 2,2). Em 1951, um dos grandes teólogos do século XX comentava este texto evangélico. Jean Daniélou afirmava que não devemos escandalizar-nos a respeito de João Batista quando ele pergunta a Jesus se é ele mesmo quem devia vir; ao contrário, é preciso ver nessa pergunta a profundidade, por parte de João Batista, da vivência do Mistério de Cristo e, ao mesmo tempo, do mistério do homem. As almas santas levam a sério a miséria real da humanidade e, do fundo de seus corações, deixam sair um grito sincero, ainda que silencioso, e que é expressão da dor que sentem diante daquelas situações que não admitem soluções fáceis: o sofrimento dos inocentes, a desigualdade social alarmante, o terror das guerras e dos desastres naturais, a miséria do pecado que vai consumindo o ser humano sem que ele perceba. Por outro lado, é de gelar a superficialidade de Gúrshehka, aquela personagem dos Irmãos Karamázov que, já bêbada e delirante, dizia: “Quero fazer loucuras, gente boa. O que importa? Deus me perdoará. Se eu fosse Deus, perdoaria a todo o mundo e diria: ‘meus simpáticos pecadores, desde hoje eu vos perdoo a todos’. Eu, pelo menos, pedirei perdão”. Com isso não se afirma se a nossa personagem em questão é má ou não, simplesmente se enfatiza a superficialidade da supracitada diante da realidade de Deus e diante do pecado. É certo: Deus é bom! Também é certo: Deus é justo!

O teólogo francês alertava contra um otimismo fácil e superficial. O realismo cristão, sem deixar de ser otimista e alegre, é também uma visão da vida e das coisas que leva a sério a dureza das distintas situações. O cristão deve gritar desde o profundo do seu coração a Deus, que tem a solução. No fundo, dizia Daniélou, esse grito que surge de uma espécie de desespero, é uma expressão de esperança. Esse grito é um grito de confiança semelhante ao de Cristo na Cruz: “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46). Temos que “obrigar” a Deus a manifestar-se – dizia Daniélou – pelo ardor da nossa oração e pela intensidade do nosso desejo.

Parece que há momentos nos quais tudo é escuridão. Parece que Deus não nos escuta, que há um obstáculo entre ele e nós. Surge uma espécie de revolta interior diante de um Deus que se diz todo-poderoso, mas não atende aquelas coisas que “eu” julgo como boas “para mim”. Esse é o momento de pedir ao Senhor que reviva em nós a fé. No “Diário de um pároco de aldeia”, de Georges Bernanos, há um momento em que o protagonista fala da sua própria fé. Como é sabido, trata-se de um sacerdote que experimenta em meio do seu trabalho apostólico, a solidão e o tédio. É um livro realista e dramático, cujas perspectivas estão abertas à esperança porque Deus está presente em toda a obra. O personagem diz que o que nós chamamos perda de fé é, no fundo, o fato de que a fé “deixa de informar a própria vida, e nada mais. (…) Eu não perdi a fé! (…) Onde ela está? Não a posso alcançar. Não a encontro no meu pobre cérebro incapaz de associar corretamente duas ideias e que não tem mais que imagens delirantes; tampouco na minha sensibilidade; nem mesmo na minha consciência”. No entanto, entre as últimas palavras do livro, encontram-se essas de enorme significado: “Que importa? Tudo é graça!”.

Às vezes, do fundo do nosso ser podem vir umas perguntas que brotam duma espécie de desespero: será que Deus existe mesmo? Será que ele escuta as pessoas? Será que está me ouvindo? Deveríamos aproveitar esse desespero para clamar com mais força, para “obrigar” a Deus a manifestar-se, para que a nossa oração cheia de ardor ganhe de Deus aquilo que parece impossível e – o que é muito importante – para que saibamos aceitar as disposições de Deus crendo que ele sabe o que é melhor em cada momento. Isto é entrega total nas mãos do nosso Pai do céu! Tudo é graça!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético — 3º Domingo do Advento — ANO A
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (Tg 5, 7-10)

INTRODUÇÃO: Este trecho é parte das exortações finais da carta de Santiago. O tempo de espera é pouco; logo a melhor maneira de sofrer contradições e perseguições, pelo fato de serem cristãos, é armar-se de paciência e resignação, tomando como exemplo as perseguições dos antigos profetas. O próprio apóstolo sofreu o martírio da parte dos judeus, servindo assim de exemplo e não só de palavras de estímulo que como diz o provérbio verba ducunt, exempla movent [as palavras guiam; os exemplos movem].

PERSEVERANÇA: Perseverai, pois, irmãos até a parousia do Senhor: Eis o agricultor aguarda o precioso fruto da terra, perseverando por causa dele, até que receba a primeira e última chuva(7). Patientes igitur estote fratres usque ad adventum Domini ecce agricola expectat pretiosum fructum terrae patienter ferens donec accipiat temporivum et serotinum.

PERSEVERAI [makrothymësate<3114>=patientes estote] imperativo do verbo makrothymeö, cujo significado é ser constante, perseverar pacientemente, ser paciente frente às ofensas, manso e lento na vingança e na ira, e paciente e resignado diante das adversidades. Escolhemos perseverar, pois a parousia implica uma constância na fé e uma fortaleza diante das perseguições. Jesus profetizou dizendo: Sereis odiados de todos por causa de meu nome; aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo (Mt 10, 22).

PAROUSIA [<3952>=adventum] é o termo técnico para designar a  vinda gloriosa de Jesus ao fim da história humana. A primeira comunidade não distinguia entre proximidade teológica e proximidade cronológica; por isso, durante algum tempo esperou a parousia como coisa iminente, como vemos em Paulo: a nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos (Rm 13, 11). Uma outra ideia é que a parousia era o fim do templo e da era mosaica, e a primitiva Igreja pensou que as imagens apocalípticas eram  mais reais do que o estilo permitia. De fato, unicamente Mateus (24, 3) fala da consumação do século [ou da era], como deve ser traduzido synteleia tou aiönos [=consummatiónis saéculi], e não como certas traduções fim do mundo (espanhola, italiana). Logo, em boa lógica, até Mateus fala unicamente da destruição de Jerusalém, do templo e do fim [consumação] da era pré-messiânica. Por ser o dia do Senhor, supunha-se ser um dia de ira como foi a destruição de Jerusalém. Porém, em Lucas, temos uma clara referência de que Jesus não falava do fim do mundo ao escrever: Ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei a vossa cabeça porque a vossa redenção está próxima (21, 28). Alude, sem dúvida, ao costume dos vencidos de se prostrarem no chão de bruços para os vencedores pisarem sobre suas costas (Is 10, 6 e Dn 8, 7 e Sl 91, 13 ). Pelo contrário, o vencedor devia olhar para o alto, com diz Lucas. Mas a principal razão para não pensar em um final absoluto é a frase de Jesus: Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça (Mt 24, 34; Mc 13, 30 e Lc  21, 32). Daí a insistência na iminência dessa parousia que se traduziu na ruína do templo e no aniquilamento do AT como vemos em Paulo e agora em Tiago. Precisamente, este último parece esperar que a parousia seja para bem e felicidade dos cristãos, pois os compara com o agricultor que espera as duas CHUVAS necessárias para uma boa ceifa: a de outono [primeira] e a de abril [última]. É uma esperança de triunfo após um tempo de trabalhos e sofrimentos.

ÂNIMO: Perseverai também vós, fortalecei vossos corações porque a parousia do Senhor se aproximou (8). Patientes estote et vos confirmate corda vestra quoniam adventus Domini adpropinquavit. Escrita esta carta entre os anos 50 e 62, com razão pode o apóstolo afirmar que a Parousia está próxima, pois tal e como temos antes afirmado, esta aconteceria realmente no ano 70. E exorta logicamente a FORTALECER [stërizö <4741>=confirmare] com o significado de firmar, fixar, fortalecer e no caso da mente será segurar, confirmar a  mesma  ou os corações, como se dizia na época.

SEM CONTENDAS: Não vos queixeis uns aos outros, irmãos para não serdes condenados: eis o juiz está às portas (9). Mas existe uma outra interpretação: eram frequentes SEM QUEIXAS [stenazete <4727>=inemiscere] do verbo stenazö  com o significado de suspirar  (Mc 7, 34) ou gemer (Rm 8, 23), lamentar-se (Hb 13, 17). Escolhemos queixar com o significado de estar ofendido por um agravo ou afronta. Mostrar ressentimento ou desagrado mútuo, de modo a não evitar a condena pela conduta. É, pois, uma queixa judicial ou causa de litígio ou demanda judicial.

CONDENADOS [katakrinö<2632>=iudicare] o verbo katakrinö é julgar com resultado condenatório, ou seja condenar, (Mt 12, 41), reprovar. Exemplo é Jesus dirigindo-se à mulher adúltera: ninguém te condenou? (Jo 8, 10). O próprio Jesus recomenda não condenar para não ser condenados (Mt 7, 1). Neste caso o juiz seria Jesus e a condena a da parousia. Mas existe uma outra interpretação: eram frequentes os litígios entre os cristãos e Paulo recomenda que não fossem levados aos tribunais civis mas que fossem caritativamente julgados pelos próprios irmãos (1 Cor 6, 1+). Por isso, Jesus dá o seguinte conselho: Entra em acordo com teu adversário enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão (Mt 5, 25). Tiago, pois, pede um basta já a todo litígio e contenda. A última frase o JUIZ ESTÁ ÀS PORTAS não deve ser interpretado necessariamente com o dia da parousia, comparado com o dia do Senhor do AT; mas pode ser interpretado no sentido de que em todo litígio quem condena é o juiz independentemente de se ter a razão.

O PARADIGMA: Tomai por modelo de sofrimento e de perseverança, meus irmãos, os profetas, os quais falaram em nome do Senhor (10). Exemplum accipite fratres laboris et patientiae prophetas qui locuti sunt in nomine Domini.

MODELO [‘ypodeigma<5262>=exemplum] hypodeigma é signo, figura, cópia, exemplo, modelo. Ao falar de sofrimento e perseverança o autor toma como modelo os profetas do AT que falaram em nome do Senhor. O exemplo mais concreto é Jeremias; mas também Amós, Oseias, Elias, Isaías e Daniel sofreram perseguição por parte dos poderes públicos. Já Jesus, em Mt 5, 12, prenunciava a perseguição dos seus discípulos e trazia como exemplo as perseguições que sofreram os profetas. E assim dirá Jesus: todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, a quem matastes entre o santuário e  o altar (Mt 25, 35). E é precisamente o serviço à palavra que merecerá a bênção do Senhor, como diz a última das bemaventuranças: Bemaventurados sois quando por minha causa vos injuriarem e vos perseguirem e, quando mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós (Mt 5, 12).

EVANGELHO (Mt 11, 2-11)
A PERGUNTA DE JOÃO

INTRODUÇÃO: O evangelho de hoje contém três seções diferentes: Pergunta do Batista; resposta de Jesus; testemunho deste sobre João. Jesus responde à pergunta do Batista com fatos que confirmam a profecia de Isaías (cap 29 e 35) sobre a conduta do Messias. E, ao mesmo tempo, não deixa de louvar aquele que foi seu arauto e precursor. Uma questão que estava na mente dos seus contemporâneos, era o poder político do Messias. Jesus se desentende do mesmo e unicamente aponta a um messiado de salvação, em que a cura do corpo é a manifestação da cura interior. Toda doença era produto de um pecado (Jo 9, 2) e a libertação da doença era sinal do perdão do pecado (Jo 5, 14), condição que Jesus impõe a quem curou da cegueira ou, antes de curar, perdoa os pecados (Mt 9, 2); assim ele se acomoda ao pensamento dos seus contemporâneos. Um outro aspecto dessa profecia é a evangelização dos pobres que trataremos em seu devido lugar, tomando as citações, tanto do grego da Setenta como do hebraico original. Finalmente está o louvor do Batista, o maior entre os nascidos de mulher, mas inferior aos nascidos na água e no Espírito (Jo 3, 5), que formam parte do Reino de Deus e não do reino de Israel, ou da descendência de Abraão.

NO CÁRCERE: Porém, o João, tendo ouvido no cárcere as obras do Cristo, tendo enviado dois dos seus discípulos (2), disse-lhe: tu és o que vem, ou esperamos outro?(3). Ioánnes autem, cum audísset in vínculis ópera Christi, mittens duos de discípulis suis ait illi: Tu es qui ventúrus es, an álium exspectámus?

POR QUE ESTAVA PRESO?  Herodes, o Grande, teve cinco mulheres e onze filhos. Dois deles tinham o mesmo nome Filipos: Um  deles, filho de Mariamne II, de nome Herodes Filipe e o outro, filho de Cleópatra cujo nome era simplesmente Filipe. Das filhas de Herodes pouco sabemos. Mas um dos filhos de Herodes chamado Aristóbulo, teve uma filha que seria célebre: HERODÍADES. Era esta, pois, neta de Herodes, o Grande, e, portanto, sobrinha de  seu futuro esposo Herodes Filipe. Tinha nascido entre os anos 15-8 aC. Herodes Filipe era filho de Mariamne II, filha do Sumo sacerdote Simão. À morte de Herodes o Grande, Herodes Filipe fica à margem do governo e vive em Roma com sua mulher Herodíades. Ambos os esposos viviam em Roma quando Herodes Antipas,  meio irmão de Herodes Filipe  e tio também de Herodíades, viajou a Roma e se hospedou na casa do seu meio irmão. Herodíades, mulher ambiciosa, não se contenta com a vida particular, fora do fausto régio. É por isso que abandona seu marido e se une a Antipas. Ambos, Herodíades e Antipas,  enamoraram-se e, como consequência, Antipas repudia sua esposa legítima, filha do rei dos nabateus, Aretas IV. Ao voltar de Roma, Antipas levou consigo Herodíades e esta, sua filha Salomé. A mulher legítima pediu por carta licença para se retirar à fortaleza de Maqueronte, o que lhe foi concedido. Reuniu-se com seu pai, Aretas, que desde esse instante se tornou inimigo de Antipas. Alguns anos mais tarde Aretas declarou guerra a Antipas. Era o ano 36. Antipas foi ajudado pelo legado da Síria,  Vitélio; mas com a morte de Tibério, o legado retirou suas tropas. Calígula, o novo imperador, que tinha grande amizade com Herodes Agripa, irmão de Herodíades, deu a este último a tetrarquia de Filipe e depois a de Antipas. Agripa é constituido rei. Agripa acusou seu tio e cunhado [Antipas] de estar em tratos com os partos. Calígula  desterrou Antipas às Gálias no 39 dC. No desterro, perto de Lião, foi acompanhado por Herodíades. E pouco tempo depois morre no desterro. Filipe o tetrarca, era filho de Cleópatra, esta de Jerusalém. Seus domínios estavam na região nordeste do lago de Genesaré que compreendia os territórios de Auranítide, Bataneia, Gaulanítide e Traconítide, e, segundo Lucas, também a Itureia. Esta parte da Palestina era a menos povoada por judeus, mas cujo domínio era de suma importância para Roma por controlar o comércio e vias de comunicação, constituindo um sério contraforte contra persas e nabateus. Governou de 4 ac até 34 dC. Foi um governador pacífico e se deixou querer pelos seus súditos. Na sua morte os domínios passaram a ser controlados pelo delegado da Síria. Mas, três anos mais tarde, Calígula os concedeu a Agripa. Nosso Herodes Filipe casou-se com Salomé, a filha de Herodíades, a que dançou na festa de Antipas e pediu a cabeça do Batista.

O INCESTO: Nos comentários, geralmente ouvimos falar de adultério, mas na realidade casar com a mulher do irmão enquanto este estava vivo, era caso de incesto, segundo Lv 18, 1: Não descobrirás a nudez da mulher de teu irmão, pois é a própria nudez de teu irmão. E o homem que toma por esposa a mulher de seu irmão comete uma torpeza, pois descobriu a nudez de seu irmão e morrerão sem filhos (Lv 20, 21). Segundo o sentir dos mestres da lei, quando homem e mulher se unem em matrimônio, formam uma só carne (Gn 2, 24). Considerava-se, pois, que a mulher era como se fosse o irmão, exceto o caso de morte em que ela era considerada livre (I Cor  7, 39). Por isso, se acostar [descobrir a nudez] era como se se acostasse com seu irmão: uma torpeza, um incesto. Por outra parte a lei permitia o divórcio; mas a mulher divorciada não poderia se casar com um irmão do seu antigo marido enquanto este estivesse vivo. O caso, pois, de Antipas com Herodíades era um incesto e não um adultério. A lei, como temos visto, estava clara e por isso o Batista clamava: Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão (Mc 6, 18).

MAQUERONTE: Era uma fortaleza na ribeira do mar Morto onde, segundo Flávio Josefo, Herodes Antipas encarcerou e executou  João, o Batista. Foi construída por Alexandre Janeu no ano 88 aC a 8 Km ao leste do mar Morto e 13 ao norte do Arnon, pequeno riacho que desemboca no mar Morto, como defesa conta os nabateus. No mesmo período, foi defesa contra os romanos que a arrasaram em 56 aC. Foi reedificada entre 25 e 13 aC por Herodes o Grande. Numa colina estava a cidadela, a segunda em importância dos judeus segundo Plínio, que era também fastuoso palácio e prisão do reino. Embaixo, construiu a cidade. Era parte da Pereia, correspondente a Herodes Antipas. Nele ficou preso e foi degolado o Batista. Em 72 dC, a conquistaram os romanos de Lucílio Basso. Suas imponentes ruínas ainda não foram escavadas. Os cárceres da época eram completamente escuros, os prisioneiros estavam seguros às paredes por meio de correntes como vemos em At 6, 10. Isso não impedia que recebessem algumas visitas, muitas vezes pagas a preço de ouro.

O ENVIO: Desde a prisão, ou como traduz a vulgata, in vinculis, estando atado ou preso, João escuta as obras de Jesus. João sente que alguma coisa está faltando na atuação de Jesus. Ele esperava outra coisa do Messias que tinha apontado como iniciador de um reino que não acabava de se tornar visível e efetivo. Talvez ele pensasse que Jesus deveria formar um exército e tentar libertá-lo, pois o Messias era a grande justiça de Javé. Justo e vitorioso é apelidado por Zacarias (9, 9-10). Um reino firmado e consolidado sobre o direito e a justiça. Porém, a conduta de Jesus nada disto fazia supor. Daí a dúvida e a pergunta: és tu o que vem ou esperamos outro?

A RESPOSTA DE JESUS: Então Jesus lhes disse: Indo, anunciai a João as coisas que ouvis e vedes (4): cegos veem, e  coxos andam, e leprosos são limpos e surdos ouvem; mortos ressuscitam e pobres são evangelizados (5). Et respondens Iesus ait illis euntes renuntiate Iohanni quae auditis et videtis caeci vident claudi ambulant leprosi mundantur surdi audiunt mortui resurgunt pauperes evangelizantur.  Marchai e anunciai a João o que ouvis e vedes: A resposta de Jesus está na pergunta de João sobre suas obras. Estas são milagres e, portanto, apontam a uma presença substancial divina. Cegos, coxos, leprosos, surdos e mortos. É uma citação implícita de Isaías 35,5-6: Então, abrir-se-ão os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos ouvirão. Pulará o coxo como um cervo e a língua do mudo cantará canções alegres. Uma segunda parte que é a evangelização dos pobres, como base intelectual e objetiva do processo, está também no terceiro Isaías 61, 1: O espírito do Senhor Javé está sobre mim, porque Javé me ungiu: enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres [lebasar anawim; em grego evanggelisasthai ptöchois, que a Vulgata traduz por ad anuntiandum mansuetis =a anunciar aos mansos; e a nova Vulgata ad anuntiandum laeta mansuetis], a curar os quebrantados de coração, e proclamar a liberdade aos cativos, a libertação aos que estão presos, a proclamar um ano aceitável a Javé, e um dia de vingança do nosso Deus. Jesus agora apela ao grande profeta que anuncia a era messiânica para reafirmar seu modo de proceder. Jesus não dá uma resposta clara sobre quem ele é, mas sobre a era messiânica por todos esperada. Ela estava à vista e ele, o Batista, era o escolhido para anunciá-la como predisseram os profetas. O judaísmo dos tempos de Jesus esperava que, na nova era messiânica, as doenças e o mal em geral, desapareceriam. Deus, o médico de Israel, erradicaria as doenças; assim mesmo, esperava a repetição da época do Êxodo e seus milagres, mas não particularmente curas. Os discípulos de João perguntam pela pessoa e Jesus responde assinalando o tempo, que tem como marca essencial a evangelização dos pobres os ptochoi gregos, ou pauperes latinos. Em outra ocasião explicamos o significado da palavra ptochós [domingo XXII em presbiteros.com.br] que traduz o anawim do texto hebraico e que significa humilde [humble], baixo [lowly], manso ou pobre. A palavra original do hebraico é anawim que não pode ser traduzido por simples pobre econômico, mas, como vemos pelas duas Vulgatas, significam os desprotegidos, os que se encontram desamparados, como eram os exilados na Babilônia do terceiro Isaías. Fundamentar sobre o grego uma visão liberacionista do evangelho de Jesus é uma solução com pouco fundamento no evangelho. Especialmente quando a frase seguinte nos diz quais eram esses pobres: os cativos, aos quais promete a liberdade e aos encarcerados a abertura da prisão [to proclaim liberty to the captives, and the opening of the prison to them that are bound, da JK inglesa].

 NOTA 1: Outra questão é que na lista de Jesus: cegos, surdos, coxos e mudos temos realmente uma lista dos mendigos da época e por isso Jesus pode terminar sua dissertação com a conclusão de que os pobres [ptochoi] são evangelizados. Fato que, sem dúvida, tanto Mateus aqui, como Lucas em 4, 18 usam a palavra grega para um fato real que se deu na vida de Jesus. Eles, os mendigos, foram os primeiros nos quais era clara a salvação e o ano aceitável a Javé, que Lucas traduz como ano de graça e conscientemente retira a coleta final: dia de vingança de nosso Deus.

NOTA 2: Na lista de Jesus, segundo Mateus, vemos uma extrapolação, que provavelmente tem levado os exegetas a uma interpretação errônea. É o caso dos leprosos que são limpos, dos mortos que ressuscitam. Mateus não é cuidadoso na narração dos fatos nem na citação dos profetas. Duplica os endemoninhados de Gadara (8, 28) os cegos em Jericó (20, 30), e são dois os malfeitores que blasfemam na cruz (27, 44). E sobre citações: acrescenta meu povo ao Israel final de Mq 5, 1 [provavelmente um parêntese explicativo que na época formava parte do texto].  A citação mais questionada é, será chamado Nazaraeus (Mt 2, 23), que não existe em nenhum dos profetas. Estes são só alguns exemplos. O mais importante é em espírito que Mateus (5, 3) acrescenta possivelmente como explicação ao pobres original que Lucas traz no seu evangelho (Lc  6, 20). A inclusão, pois, dos dois grupos é uma redundância do evangelista que objetiva mais a salvação do que a pobreza dos indivíduos. E como era frequente na época, nesta citação implícita de Jesus como reposta, se incluem duas passagens de dois profetas diferentes: 1º e 3º Isaías, que não eram diferenciados como autores diferentes.

O ESCÂNDALO: Portanto, ditoso é quem não encontra escândalo em mim (6). Et beatus est qui non fuerit scandalizatus in me.

O MAKARISMO: Temos explicado no XII Domingo o significado de makários, ou beatus em latim com motivo das bemaventuranças. Tanto em Mateus como Lucas, Jesus termina sua resposta com uma frase surpreendente: Portanto, está abençoado [por Deus] aquele que não se tenha escandalizado em mim [na minha pessoa e atuação]. Temos traduzido o Kai grego, que corresponde ao Vau hebraico, tendo este significado de consequência, causa e outros, além de simples conjunção. Que quer dizer Jesus com a palavra escândalo? A raiz é skandalon que significa armadilha, laço, obstáculo, impedimento. Jesus quer dizer que existirão muitos que verão na sua pessoa  um impedimento para entrar na nova era e, portanto neles se realizará a profecia de João: serão batizados com o fogo da destruição à semelhança como uma cidade assediada, que não quis se render inicialmente ao sitiador. Ela era condenada ao fogo e à destruição, sem misericórdia.

ELOGIO DO BATISTA: Saindo, pois, estes, começou Jesus a dizer às turbas acerca de João: Que saístes ao descampado ver? Um caniço, sendo agitado pelo vento? (7). Pelo contrário, que saístes a ver? Um homem em (roupas) finas vestido? Vede, os que vestem (roupas) finas estão nas casas dos reis (8). Illis autem abeuntibus coepit Iesus dicere ad turbas de Iohanne quid existis in desertum videre harundinem vento agitatam Sed quid existis videre hominem mollibus vestitum ecce qui mollibus vestiuntur in domibus regum sunt.

O DESERTO: Uma vez idos os enviados de João, Jesus começou um panegírico de João com a pergunta: Que saístes a ver no deserto? Porque não era um caminho natural nem um lugar apropriado para passar a noite ou o dia. O deserto era um lugar estéril amaldiçoado por Deus, terra temível e espantosa, onde moravam os demônios (Mt 12, 43). Por outra parte, era do deserto que se esperava, como no Êxodo, uma ação divina salvífica. Então o deserto –dirá Isaías- se transformará em vergel e o vergel será tido como floresta (35, 15).

A CANA: Contrariamente ao que temos ouvido que uma cana é frágil e por sua moleza pode se bambolear, na realidade, entre os eruditos hebreus da época, ela era símbolo de firmeza. Seja um homem sempre delicado como uma cana e não duro e obstinado como um cedro. Quando os 4 ventos da terra sopram, a cana vai e vem com os ventos e quando eles cessam a cana lá está em seu lugar. Consistência e delicadeza é a representação de uma cana perante os golpes rudes da vida. O contraste do parágrafo seguinte dá pé para afirmar também que nestas primeiras frases não está a figura de João.

AS ROUPAS FINAS: Hoje os novos exegetas falam de que não é o Batista nestas duas primeiras perguntas o atingido, mas as margens do Jordão e Herodes Antipas. O deserto da Judeia, perto do rio Jordão, era um campo de canaviais de rio em abundância e, por outra parte, nele existiam os palácios de inverno de Herodes como eram Jericó, Maqueronte e Massada. Antipas e os seus cortesãos gostavam de vestidos luxuosos. Portanto, as duas perguntas primeiras de Jesus estavam dirigidas ao tetrarca e seu ambiente: Fostes ver um canavial perto do deserto ou um  homem luxuosamente vestido como era Antipas, ou era um profeta?

UM PROFETA: Mas que saístes para ver? Um profeta? Sim, digo-vos e muito melhor que profeta (9). Esse, pois, é acerca de quem está escrito: Eu envio meu mensageiro diante de tua face, o qual disporá teu caminho diante de ti (10). Sed quid existis videre prophetam etiam dico vobis et plus quam prophetam. hic enim est de quo scriptum est ecce ego mitto angelum meum ante faciem tuam qui praeparabit viam tuam ante te.

O PROFETA: Aqui, sim, que Jesus dá a razão a seus ouvintes. Antipas e seus palacianos não mereciam a pena. Eram verdadeiros farsantes da vida, mas que sempre ocupam infelizmente as páginas do coração. À pergunta de: se foram ver um profeta, Jesus afirma que João era mais do que um simples profeta. O ofício destes era apontar o futuro de Israel, ou seja, a escatologia que inaugurasse o novo eón messiânico, desde Isaías até Malaquias. Os novos tempos já estavam às portas e aquele que indicava, como último sinaleiro, a nova era, era precisamente João. Por isso era mais do que um profeta. Era o enviado especial de quem estava escrito: envio meu mensageiro diante de tua face de modo a preparar teu caminho diante de ti. Mas quem é o profeta que predisse esse anjo precursor? 1º) Isaías, do qual temos os textos: Uma voz clama: no deserto abri um caminho para Iahveh; na estepe aplainai uma vereda para o nosso Deus (40, 3). E: De todos os meus montes farei caminhos, as minhas entradas serão elevadas (49, 11). 2º) Malaquias, em quem podemos ler: Eis que vou enviar o meu mensageiro para que prepare um caminho diante de mim. Então, de repente, entrará em seu templo o Senhor que vós procurais, o Anjo da Aliança que vós desejais, eis que ele vem, disse Iahveh dos exércitos (3,1). E em 3, 23-24,  segundo as bíblias católicas, ou 4, 5-6 na JK: Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que chegue o dia de Iahveh grande e terrível. Ele fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais para que eu não venha ferir a terra com anátema [herém, ou exterminação, no hebraico original]. Como vemos em ambos os profetas o caminho é preparado DIANTE DO SENHOR. Já  os textos do NT falam DIANTE DE TI. Em outros contextos, mas se referindo ao mesmo João, temos Marcos 1,3: Voz que grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor. Aplainai suas sendas. Em Lucas temos: E tu menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois irás diante do Senhor para preparar seus caminhos (1, 76), Como está escrito no livro do profeta Isaías: Voz que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor. Aplainai suas sendas (3, 4).

O ANJO DO SENHOR:

A) CRISTO: Uma interpretação de uma nota (?) da bíblia evangélica JK diz que existe uma forte evidência de que as manifestações do anjo do Senhor são, de fato, manifestações de Cristo, o Filho de Deus. As coisas ditas do anjo do Senhor estão além da categoria dos anjos e unicamente são aplicáveis a Cristo. Agar o chama com o nome de Deus: tu és El Roi [Deus que vê](Gn 16, 13). Quando o anjo do Senhor apareceu através da sarça ardente a Moisés, tanto o anjo como Moisés afirmam ser ele Deus: Elohim [Deus] o chamou do meio da sarça (Êx 3, 2-6). No capítulo 23, 21, o anjo do Senhor tem o poder de perdoar os pecados e se apropria do nome de Deus em si mesmo: Nele está o meu Shem [nome]. Quem é esse anjo do Senhor em definitivo? Segundo esta nota da JK seria o próprio Cristo – Jesus.

B) MOISÉS, como tipo do Batista. Em Êxodo 23, 20-21 o anjo poderia ser o próprio Moisés falando em terceira pessoa? Não existe objeção séria a essa identificação no texto do Êxodo. Nesse caso, Moisés seria a figura representativa do Batista. Mas esta interpretação está fora do lugar, pois Jesus fala diretamente do Batista como anjo do Senhor. E o Batista tem como figura tipo Elias.

C) O BATISTA no lugar de Elias: Assim, a Bíblia de Jerusalém diz que esse anjo/mensageiro parece ser distinto de Deus, se bem que a sua ação seja a de Javé. Esse anjo está tão cercado do Senhor, que poderia ser confundido com Ele. No NT anuncia o nascimento de Jesus aos  pastores (Lc 2, 0-10). Jesus fala de que existem muitos nos céus e que os homens da ressurreição serão como eles (Mt 22, 30).  Neste caso, João seria o anjo e Jesus aquele a quem João prepara o caminho. O texto de Mateus: Esse, pois, é acerca de quem está escrito: Eu envio meu mensageiro diante de tua face, o qual disporá teu caminho diante de ti (11, 10), tem um lugar paralelo em Lucas: Ele é de quem está escrito: Eis que eu envio meu mensageiro à tua frente, ele preparará o teu caminho diante de ti (7, 27). Os dois textos coincidem exatamente palavra por palavra no grego original.

DIANTE DE TI: Os textos proféticos, Isaías e Malaquias,  falam evidentemente dos caminhos do Senhor. Porém, os textos do NT falam diante de ti, que parece ser o Messias. O problema é que Malaquias (3,1), o único citado pelos comentaristas, não diz precisamente isso, mas: Eu enviarei meu mensageiro a preparar o caminho diante de mim, de Javé como protagonista, logicamente. Todavia, os dois evangelistas [Mt 11. 10 e Mc 1,2)] citam as palavras de Jesus como se referindo a ele mesmo. Para isso, misturam Malaquias com Êxodo 23, 20 em que Javé envia um anjo para que guarde Israel no caminho e o conduza ao lugar preparado para ele. Ou talvez seja só o Êxodo que devemos ter como citado, e esse anjo, que foi Moisés, agora se transforma em João que deve guiar o povo a uma nova terra prometida? A citação do Êxodo é: Eis que eu envio um anjo [malak, mensageiro] diante de ti para que te guarde pelo caminho e te leve ao lugar prometido. É claro que na passagem do Êxodo, o tu, diante do qual o anjo precede, era o povo de Israel. Podemos ter duas interpretações para esse diante de: A) Diante do povo de Israel, como vemos pelo texto do Êxodo 23, 20, que diz: Eis que te envio um anjo diante de ti para que te guarde pelo caminho e te conduza ao lugar que tenho preparado para ti. Esse anjo ou guia tão perto do Senhor, que poderia ser confundido com Ele, era Moisés falando em terceira pessoa. É um anjo protetor (Gn 24, 7 e Nm 20, 16) que já anuncia o livro de Tobias (Tb 5, 4+). O Batista seria um novo Moisés que preparava o povo para a terra de salvação. B) Diante de Jesus: Esse tu diante de quem os caminhos são facilitados, poderia ser o próprio Jesus que, neste caso, toma o lugar de Iahveh e é por isso que conscientemente os evangelistas trocam expressamente o diante do Senhor por diante de ti, pois Jesus era o Senhor. Nesse caso, João seria o anjo e Jesus aquele a quem João prepara o caminho. Esta é a interpretação mais aceita pelos exegetas modernos. Porém, no nosso caso, mais parece que essa ação protetora e dirigente é a do Batista com respeito ao povo que o escutava para dirigi-lo ao terreno da salvação. Era uma missão muito próxima da que teve Moisés, que dirigiu o povo precisamente no deserto. Daí a pergunta que dirigiram ao Batista: És tu o Messias? (Lc 3, 15). E ele teve que responder que não era o Messias  (Jo 1,20). O importante é saber que João era o anjo do Senhor, tão importante como o do Gênesis ou o Moisés do Êxodo.

O ELOGIO: Certamente vos digo: Não têm surgido entre os nascidos de mulheres (sic) melhor do que João, o Batista; porém o mínimo no Reino dos céus é melhor do que ele (11), Amen dico vobis non surrexit inter natos mulierum maior Iohanne Baptista qui autem minor est in regno caelorum maior est illo.

O MELHOR:  Entre os nascidos de mulher não existe melhor do que João. Jesus não tem paliativos em sua apologia do Batista. Ele estava até por cima de Moisés. A razão é que foi escolhido para o trabalho mais importante: apontar quem era aquele que todo Israel esperava como seu salvador. Porém, esta parte tem sua contrapartida: o menor do Reino será maior do que o maior da época anterior ao reino. Infelizmente, a teologia tem sido usada como intérprete numa situação em que a hermenêutica tem o labor fundamental. A exegese deve ter a primeira palavra e a teologia deve respeitar e interpretar a mesma e não deturpá-la.  Devemos partir do ponto de vista, não teológico, em que o batismo nos torna filhos de Deus, mas de que as ideias dos ouvintes devem ter prioridade na interpretação do texto. E essas ideias têm como base o conhecimento de que a presença do Messias era parte essencial do novo Reino. Como profeta, João anuncia o Messias que vem [está por vir]. Os que pertencem ao Reino aceitam o Messias que veem [estão vendo]. O reino já não é um futuro, mas uma presença real. Existe a diferença entre uma salvação em esperança e uma salvação de fato. Não é o fato de comparar os méritos de João com os méritos dos discípulos de Jesus. O caso é a eleição divina que compara um profeta de futuro com uma realidade presente que se tornou o cumprimento do vaticínio. Por isso qualquer presente é melhor que um passado obsoleto. Não é possível emendar um vestido velho com um pano novo (Mt 9, 16).

PISTAS:

1) A pergunta de João está na linha da esperança dos judeus por um mundo melhor. O que deve vir é o Messias em pessoa. A resposta de Jesus o identifica com um messiado especial com a esperança dos mais humildes, com um mundo novo diferente, em que o antigo, por mais excelente que fosse, seria sempre inferior ao mínimo novo.

2) Porém, neste Reino novo, a pessoa de Jesus era fundamental, de modo que a fé nele se tornava consequência da admissão de suas palavras. Por mais que estas parecessem difíceis e duras (Jo 6, 60), elas eram causa de vida eterna (idem 6, 68). Jesus, ou escandalizava, ou era fielmente seguido. Porque a razão de escândalo está em sua humilde aparência, em sua derrota como homem e como profeta. Em sua cruz (1 Cor 1, 23), quando poderia ter usado legiões de anjos em sua defesa, ele preferiu a morte que implicava a vitória aparente de seus inimigos. E precisamente nessa derrota está a base de seu triunfo final.

3) Paulo compreendeu bem a relação derrota/triunfo quando se propôs pregar unicamente Cristo e Cristo crucificado (1Cor 1, 23). Contrariamente a todas as grandes figuras da História, Jesus nasce na mais humilde das moradas e morre no mais odiado dos tormentos. Compreender isto e vivê-lo como norma de vida é entender o amor infinito de Jesus e a misericórdia sem limites do Pai.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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